O número global de mortes causadas pelo câncer do colo do útero pode registrar um salto de 39,3% até o ano de 2050, alcançando aproximadamente 522 mil óbitos anuais. No mesmo intervalo, a quantidade de novos diagnósticos da doença deve apresentar uma elevação de 20,2%, ultrapassando a marca de 1 milhão de casos por ano em todo o planeta.
Projeções globais e metodologias As estimativas integram um estudo divulgado em uma segunda-feira (2) na revista científica Nature Medicine. A investigação examinou informações estatísticas de 204 países e territórios — entre eles o Brasil —, evidenciando que, mesmo sendo um dos tumores com maior potencial preventivo, a patologia seguirá fazendo centenas de milhares de vítimas nas próximas décadas.
O trabalho foi conduzido por um grupo internacional de especialistas, sob a liderança de Natalie Pritchett e Lisa Force, vinculadas à Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Os autores recorreram aos registros do estudo Carga Global de Doenças (GBD, na sigla em inglês) para analisar a incidência e a mortalidade entre 1990 e 2023, projetando cenários futuros por meio de modelos estatísticos.
Impacto populacional e o cenário no Brasil Os autores pontuam que o total absoluto de ocorrências e óbitos pode subir mesmo diante de quedas nas taxas ajustadas por idade. Esse fenômeno ocorre devido ao crescimento e ao envelhecimento demográfico global, fatores que ampliam a população sob risco, apesar de o perigo individual por faixa etária apresentar redução.
No contexto brasileiro, os cálculos estatísticos apontaram que o país acumulou, em 2023, cerca de 26,5 mil novos casos e 10,9 mil óbitos decorrentes da enfermidade. Em comparação com o ano de 1990, o levantamento apontou uma expansão de 94,9% nos novos diagnósticos absolutos e de 64,6% nas mortes, ao passo que a taxa de mortalidade ajustada por idade sofreu retração estimada de 39,9%.
Esses valores estatísticos internacionais divergem dos dados oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) e pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), visto que as bases governamentais empregam períodos, fontes informativas e abordagens metodológicas diferentes. Ademais, o Inca reforça que o tumor apresenta forte incidência nas regiões Norte e Nordeste, onde persistem barreiras no diagnóstico precoce.
Desigualdades geográficas e países pobres As disparidades entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento constituem um dos achados centrais da pesquisa. Em 2023, a incidência da doença em territórios de baixa renda superava em quatro vezes a registrada em locais ricos, enquanto a mortalidade era sete vezes superior.
A situação mais crítica recai sobre a África Subsaariana, onde as projeções apontam expansão de 88,7% nos novos casos e de 95,4% nos óbitos até 2050. Os cientistas associam essa desigualdade à baixa cobertura vacinal contra o papilomavírus humano (HPV), à deficiência nos exames de rastreamento, às limitações terapêuticas e ao impacto da infecção pelo HIV.
Estratégias de prevenção e diretrizes da OMS Por ter como causa principal a infecção persistente por tipos de alto risco do papilomavírus humano (HPV), o tumor dispõe de ferramentas eficazes de controle, baseadas na imunização preventiva e em exames de rastreamento capazes de detectar alterações celulares ou o DNA do vírus antes do desenvolvimento de lesões invasivas.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza gratuitamente a vacina contra o HPV para o público de 9 a 14 anos em dose única, além de incorporar progressivamente testes moleculares para rastreamento do DNA do HPV. Paralelamente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta global de eliminar a doença como problema de saúde pública até 2030, estipulando metas para vacinação, testagem e tratamento. Contudo, as projeções atuais indicam que nenhuma das sete grandes regiões globais alcançará tal patamar até 2050 sem a aceleração drástica das políticas de saúde pública.






