Partidos do centro político estão articulando a aprovação de uma reforma política para modificar o modelo de escolha de vereadores e deputados no país a partir de 2034. O formato em debate é o distrital misto, no qual o eleitor precisará registrar dois votos na urna: um em um candidato de sua região e outro diretamente na legenda partidária.
Contexto da articulação política A meta de votar essa alteração ainda no ano de 2026 foi informada em uma reunião ocorrida na quarta-feira (28.oct.2026), reunindo dirigentes partidários e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Participaram do encontro representantes do PSD, MDB, União Brasil, PP, Republicanos, PSB, Podemos e da federação PSDB-Cidadania, enquanto PL, PT, Psol, Novo e Missão ficaram de fora.
Para que a mudança passe a valer, o texto precisa ser aprovado como uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) em dois turnos de votação, exigindo o apoio mínimo de três quintos dos parlamentares tanto na Câmara quanto no Senado. A nova regra valeria exclusivamente para pleitos proporcionais, mantendo intocada a disputa majoritária para o Senado Federal.
Entenda o modelo atual de eleições proporcionais Atualmente, o eleitor brasileiro vota apenas uma vez nas urnas, optando por um postulante específico ou diretamente pela sigla, sendo todos os sufrágios contabilizados para o desempenho total da legenda ou federação.
A divisão das vagas ocorre mediante o quociente eleitoral, calculado ao dividir o montante de votos válidos pelo total de cadeiras disponíveis na respectiva unidade federativa. Como exemplo, São Paulo detém 70 assentos na Câmara e registrou 24,5 milhões de sufrágios, resultando em um quociente de 350 mil votos.
Para definir os mandatos de cada partido, soma-se a votação nominal dos candidatos com os votos de legenda, dividindo o resultado pelo quociente eleitoral. Nomes com grande expressão popular conseguem impulsionar outros integrantes da mesma chapa, sendo exigido que o candidato atinja isoladamente ao menos 10% do quociente para conquistar a vaga na lista aberta.
Como funcionaria o voto distrital misto No sistema em discussão, cada Estado seria segmentado em distritos populacionais equivalentes, impondo ao cidadão o voto distrital, direcionado a um representante local, e o voto de legenda, destinado ao número do partido.
Metade das cadeiras do parlamento seria ocupada pelos vitoriosos em cada distrito, enquanto o restante seria distribuído de forma proporcional com base na votação recebida pelas siglas. A vitória no território serve para o candidato garantir sua vaga e “furar a fila” da lista pré-ordenada elaborada pelo partido.
Distorções e desequilíbrios apontados por especialistas Defensores do formato argumentam que a medida aproximará o congressista de sua base eleitoral. Contudo, levantamentos mostram que boa parte dos deputados federais atuais já mantém forte atuação regionalizada, o que significaria uma redução dessa proximidade, já que apenas metade das cadeiras seria estritamente distrital.
Além disso, analistas apontam que o Brasil criaria um formato inédito no mundo ao ignorar a premissa de equivalência em que cada voto possui o mesmo peso e os distritos mantêm populações semelhantes. Atualmente, o país sofre com desproporcionalidades históricas na Câmara, onde Estados como Roraima possuem cadeiras acima do cálculo populacional puro, enquanto São Paulo enfrenta grande defasagem no número de representantes.
Análise acadêmica sobre as motivações da reforma Para o cientista político Bruno Pinheiro Wanderley Reis, professor da UFMG, a movimentação do Centrão representa uma resposta estratégica frente ao crescimento de legendas como PL e PT e ao avanço de bancadas de opinião nas eleições de 2026.
“Pode ser que a estratégia neste momento seja algumas cúpulas partidárias tentando aproveitar essa janelinha (…) para ver se passa alguma coisa diluída com essa perna distrital”, declarou Reis.
O especialista acrescenta que as siglas tradicionais buscam maior estabilidade e controle institucional: “O MDB ou PSD vai ter mais dificuldade no proporcional. Mas acho que o que eles estão querendo é um pouco isso, botar um freio, uma mediação partidária, uma trava. É mais um conservadorismo de médio e longo prazo do que alguma reversão drástica das tendências”.
O impacto das redes sociais e dos candidatos isolados O pesquisador também aponta que o ecossistema digital incentivou campanhas autônomas de influenciadores e celebridades, conhecidas como “voos solos”, que escapam do controle das direções partidárias.
“Há razões de preocupação com certa ‘hackeabilidade’ do nosso sistema com lista aberta… Quando acrescenta sobre isso a internet e toda a opacidade dos algoritmos e dos fluxos e impulsionamentos, fica pior ainda”, diz.
Apesar de ver na lista pré-ordenada uma forma de conter esse cenário, Reis alerta para a extrema complexidade técnica na definição dos limites territoriais dos distritos. Ele também considera o modelo puramente distrital ultrapassado: “Acho muito anacrônico, está obsoleto. Ninguém mais vive no distrito. Você nasce num lugar, vive em outro, trabalha em outro, vota no terceiro”.
Sobre o posicionamento dos grandes partidos diante de uma lista fechada, o professor avalia que legendas consolidadas levariam vantagem na fidelização do eleitorado.
“O que esta eleição mostrou é que teve muita gente que saiu de casa para votar 22 e ponto, de cima a baixo. O PL, se você chama para um voto em lista, está mais pronto que qualquer partido do Centrão. Chega com sua lista e fala: ‘Vote em nós’”.
Prós e contras avaliados por especialistas Entre os pontos positivos apontados por analistas estão o estímulo à responsabilidade partidária, o fortalecimento da prestação de contas, a diminuição da dependência financeira de redes sociais e a valorização de lideranças regionais focadas em programas partidários.
Por outro lado, os principais pontos negativos englobam a alta complexidade para o entendimento do eleitor, o risco de manipulação política no desenho dos distritos, a exigência de fórmulas de transbordo e o aumento do poder de decisão centralizado nas cúpulas dos partidos.
Quem ganha e quem perde com a mudança A mudança tende a beneficiar os grandes partidos com capilaridade nacional, as cúpulas partidárias que definirão as listas fechadas e os líderes regionais com forte penetração local.
Em contrapartida, os principais prejudicados seriam os chamados puxadores de voto individuais, candidatos com bases eleitorais pulverizadas pelo território estadual, legendas de menor porte sem capilaridade distrital e as campanhas focadas em grandes estruturas de marketing e consultoria digital.






