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Protestos de jovens na Europa expõem crise social

Como a falta de perspectiva de futuro alimenta protestos de jovens na Europa

O continente europeu enfrenta uma intensa onda de agitação social nas últimas semanas, com milhares de pessoas ocupando praças e avenidas de capitais como Paris, Madri, Bruxelas, Lisboa e Roma. Os atos, marcados por forte presença de estudantes, têm chamado a atenção das autoridades locais pelo volume de participantes e pela recorrência de confrontos com a polícia em várias cidades.

A dinâmica da “tiktokização” e a revolta estudantil

A articulação das marchas ocorre majoritariamente de forma descentralizada por meio de plataformas digitais como o Instagram e o TikTok. O fenômeno levou o ministro do Interior da Bélgica a criticar o que classificou como “tiktokização” dos protestos. A faísca inicial partiu da França em setembro, impulsionada por demandas sobre a precariedade das escolas, e rapidamente se espalhou por mais de 1.600 quilômetros na região.

Em Atenas, o estudante grego Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, disse à agência de notícias AFP: “Os prédios escolares estão em péssimas condições e são mal conservados… Acho que alguma coisa pode mudar por causa do que a França está fazendo. A França vai impulsionar a Grécia”.

Crise econômica, moradia e inteligência artificial

As demandas dos manifestantes ultrapassam as pautas educacionais e refletem um profundo temor em relação à estagnação econômica. Os jovens europeus convivem com a apreensão de que o avanço da inteligência artificial diminua postos de trabalho, além do encarecimento expressivo do custo de vida e do mercado imobiliário, o que dificulta a independência financeira e a formação de famílias.

Em Lisboa, Carolina Cruz, de 26 anos, doutoranda e pesquisadora em biologia, disse que corre o risco de perder a moradia porque seu contrato de aluguel está perto do fim. “Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar”, afirmou à agência de notícias Reuters.

A mesma urgência é compartilhada em Milão. Riccardo, de 22 anos, declarou à AFP: “Mesmo que não consigamos mergulhar o país no caos, como na França, ou bloquear todas as estradas, como na Espanha, o objetivo é pelo menos fazer com que as pessoas voltem a discutir esses problemas”.

Um acúmulo de crises sem resolução

Especialistas apontam que a instabilidade atual resulta de um longo histórico de choques sucessivos na região. Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, avalia que o continente acumula instabilidades que nunca foram solucionadas adequadamente.

“Uma crise se sobrepõe à outra”, disse Leonard à BBC. “A crise financeira de 2007 e 2008, a crise migratória de 2015, a crise ambiental, a pandemia de covid-19, a inflação após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e agora, mais uma vez, com a guerra no Golfo.”

Leonard acrescentou sobre a fragmentação social: “Já vimos isso nos Estados Unidos. É a sensação de que ‘a minha crise é mais importante do que a sua’.”

Por sua vez, Nathalie Tocci, ex-assessora do governo italiano e professora da Universidade Johns Hopkins, destaca o ativismo político da juventude. “Temos a tendência de achar que os jovens são desinteressados e alheios à política. Pensamos que eles nem se dão ao trabalho de votar, por exemplo, mas, na verdade, são muito engajados”, afirmou Tocci à BBC. “Só que participam de uma maneira diferente, mais ligada à mobilização popular. Basta lembrar o ‘Fridays for Future’ (Sextas-feiras pelo Futuro, em tradução livre), movimento ambientalista que se espalhou pela Europa há alguns anos, ou as manifestações contra as ações de Israel em Gaza depois de 7 de outubro.”

Impactos políticos e o enfraquecimento do contrato social

Enquanto governos endurecem as sanções contra vândalos — incluindo responsabilização financeira para pais de menores infratores na Itália e na França —, partidos nacionalistas e de extrema direita ganham força nas pesquisas eleitorais ao explorarem discursos de lei e ordem.

Para Grégoire Roos, diretor para a Europa do think tank Chatham House, a crise reflete uma falha sistêmica na representatividade tradicional. O especialista resume a gravidade do cenário institucional ao afirmar: “Eu diria que eles também enfrentam uma crise de legitimidade. O fato de tantas pessoas, jovens e não tão jovens, estar nas ruas protestando indica que esses partidos não conseguiram lidar com os problemas”.

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