Enquanto o cenário político brasileiro historicamente abriga figuras folclóricas e personagens exóticos que conquistam as redes sociais e as urnas, as disputas nos Estados Unidos raramente registram concorrentes com perfis semelhantes. A ausência desses fenômenos curiosos nas campanhas norte-americano desperta curiosidade, mas encontra justificativas diretas na arquitetura institucional do país.
O peso das regras eleitorais americanas
A principal barreira para a proliferação de candidaturas pitorescas está no modelo de votação adotado pelos norte-americanos. Como o sistema é fundamentado em disputas distritais, cada postulante depende exclusivamente do próprio apelo junto à comunidade local, sem contar com a alavancagem de grandes puxadores de votos para legendas.
O comentarista da GloboNews, Marcelo Lins, explica as diferenças entre Brasil e EUA. “Por aqui [no Brasil], um candidato que vem, por exemplo, de um personagem de TV, ou alguém muito histriônico, quando se candidata, pode chamar votos para o partido dele e ajudar a eleger outros candidatos. Além disso, ao se inscrever no partido, automaticamente ele tem direito a propaganda gratuita na televisão, que dá uma visibilidade e faz com que seja mais conhecido e facilmente eleito”, afirma.
Nos EUA, essa lógica muda porque o voto é distrital. Nos Estados Unidos, no sistema de voto distrital, cada candidato só chama votos para si mesmo em cada distrito, e não tem propaganda eleitoral gratuita. O candidato precisa pagar por cada espaço que ele quer na TV por lá”, explica. Além disso, o processo interno de prévias realizado por democratas e republicanos acaba filtrando postulantes considerados menos preparados ou focados apenas no entretenimento.
Influenciadores e celebridades na política
Apesar da escassez de candidatos estritamente cômicos, o fenômeno de figuras da internet e da televisão tentando migrar para a vida pública também marca presença no exterior. No Texas, por exemplo, o criador de conteúdo Brandon Herrera busca uma cadeira na Câmara dos Representantes. Conhecido na internet como “The AK Guy”, ele comanda um canal sobre armas com mais de 4 milhões de inscritos e construiu uma marca consolidada no nicho armamentista, após uma tentativa frustrada anterior em 2024.
Outras tentativas digitais acabaram barradas ainda nas etapas internas dos partidos. Adam Dunigan, ex-agente secreto da CIA convertido em analista de geopolítica, tentou a indicação democrata na Virgínia, mas terminou na terceira colocação. Da mesma forma, o ator Luke Gulbranson, conhecido pelo reality show “Summer House”, buscou espaço em Minnesota, porém ficou na segunda posição durante as primárias.
Polêmicas nas redes sociais
A busca por engajamento digital também gerou episódios controversos e debates internos sobre os limites da comunicação eleitoral. Candidata pelo Partido Democrata em Michigan, Shelby Campbell adotou estratégias heterodoxas para atrair o eleitorado jovem, publicando vídeos de dança e conteúdo considerado atípico para uma disputa legislativa em plataformas como Instagram e TikTok. A repercussão culminou em debates partidários e na desqualificação da aspirante, cujo nome acabou de fora das cédulas de votação.






