Pesquisadores brasileiros conseguiram transformar resíduos de estações de tratamento de água em um insumo agrícola de alta eficiência. Uma inovação baseada em nanotecnologia converte o subproduto em fertilizante de liberação lenta, resolvendo um grave problema de descarte para o setor de saneamento básico.
Processo hidrotérmico e neutralização do alumínio
Diferente dos efluentes de redes de esgoto, o material gerado na purificação da água possui baixa carga orgânica e concentrações elevadas de sais de alumínio. O elemento químico livre pode prejudicar as raízes das plantas e dificultar a absorção de nutrientes fundamentais, como o fósforo.
“A tecnologia desenvolvida transforma esse resíduo em matéria-prima para insumos agrícolas, agregando valor a um material que tradicionalmente representa custos de manejo e de descarte, com potencial para aumentar a eficiência do uso de nutrientes”, diz Ribeiro.
Para contornar esse obstáculo, cientistas aplicaram um método de conversão hidrotérmica em autoclave para gerar minerais conhecidos como zeólitas. A técnica reorganiza a estrutura do resíduo, aprisionando o alumínio e permitindo a formulação de grânulos com nitrogênio e potássio.
Desafios logísticos e custos operacionais
Empresas do setor enfrentam grandes despesas para transportar e destinar toneladas de subprodutos diariamente. A validação bem-sucedida em laboratório abre caminho para a criação de projetos industriais-piloto e futura comercialização do produto voltado ao campo.
“A pesquisa desenvolvida na ETA Vargem Grande Paulista, em parceria com a Embrapa, segue nessa direção”, diz o diretor.
Testes agronômicos e proteção biológica
Avaliações conduzidas com gramíneas mostraram que o material granulado melhora expressivamente a absorção de elementos essenciais e estimula a produção de biomassa nas lavouras.
“Além das avaliações agronômicas, realizamos: avaliação química para determinar os macronutrientes e micronutrientes como fósforo, potássio, cálcio, magnésio, ferro, cobre, manganês e zinco; e análise por espectroscopia fotoacústica e cromatografia iônica para confirmar que o nitrogênio não estava sendo perdido por volatilização na forma gasosa ou solubilizado e infiltrado no solo”, afirma a pesquisadora Ana Rita Nogueira, coordenadora das análises químicas.
“A zeólita retém mais o nitrogênio, evita a emissão de gases e mantém os nutrientes disponíveis para que as raízes das plantas os absorvam em maior quantidade”, afirma Nogueira, também pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste.
Além disso, testes demonstraram que a estrutura do grânulo funciona como um excelente veículo de proteção para microrganismos benéficos, a exemplo da bactéria Bacillus megaterium, ampliando o potencial biológico do adubo sustentável.
Uso do material in natura e perspectivas
Estudos complementares analisaram a aplicação do resíduo bruto diretamente no solo em diferentes proporções.
“O feijão apresentou sensibilidade moderada, com redução da biomassa em doses superiores a 25%, enquanto o milho tolerou a incorporação de lodo em concentrações de até 50%”, disse Perrony.
Os autores do estudo também notaram reduções importantes nas concentrações de alumínio absorvido pelas vagens.
“O silício livre e o quartzo fornecidos pelos lodos contribuíram para essa redução, com os níveis de alumínio passando de 31,26 mg/kg no tratamento-controle para aproximadamente 20 mg/kg”, observou Perrony.
“Para a produção de alimentos, os resultados indicam o uso de doses de até 5% em proporção peso por peso. Já para a construção de tecnossolos e a restauração de áreas degradadas, doses de até 15% (p/p) mostraram-se adequadas, sem provocar distúrbios nutricionais significativos nas condições avaliadas”, afirma o pesquisador.
Com o avanço das análises de campo, o setor busca a regulamentação oficial do produto para consolidar uma alternativa viável, econômica e ecológica para a agricultura nacional.






