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Mãe relata drama de bebê que morreu após cirurgias em SP

'Tantos casos, não é normal', diz mãe de bebê de 1 ano que morreu após cirurgias em hospital investigado por série de mortes em SP

A Polícia Civil de São Paulo abriu inquérito para apurar uma série de óbitos de crianças no Hospital Salvalus, localizado na Mooca, zona leste da capital. Entre os casos investigados está o de Alice Vitória, que faleceu em abril deste ano, três dias após completar 1 ano de idade, na sequência de diversos procedimentos cirúrgicos e complicações na unidade que pertence à rede Hapvida, integrante do grupo NotreDame Intermédica.

Início da internação e complicações respiratórias A assistente social Leticia Ferreira levou a filha ao hospital para realizar uma cirurgia de gastrostomia. A menina possuía uma síndrome de base que dificultava a deglutição, necessitando do procedimento para trocar a sonda nasoenteral por um acesso de longo prazo. A expectativa inicial era de uma semana de internação, porém a rotina médica transformou-se em uma sucessão de intervenções, infecções e paradas cardíacas.

A certidão de óbito apontou sepse com foco pulmonar e insuficiência respiratória aguda. De acordo com o relato materno, logo após a primeira operação, a criança não conseguiu deixar a ventilação mecânica devido a broncoespasmos, exigindo permanência prolongada na Unidade de Terapia Intensiva. Quando os médicos planejavam a extubação, a sutura do procedimento rompeu-se, provocando vazamento de líquido abdominal e obrigando um novo retorno ao centro cirúrgico.

Novas cirurgias e infecções hospitalares Durante a segunda intervenção, a paciente sofreu uma parada cardíaca. Como Alice tinha uma cardiopatia congênita do tipo comunicação interventricular, a equipe médica associou parte das dificuldades aos impactos dos procedimentos no coração. Posteriormente, a menina apresentou melhora temporária, mas desenvolveu lesões na cabeça, incluindo na região de uma válvula usada para tratar hidrocefalia.

A abertura da ferida gerou infecção e nova cirurgia. A situação agravou-se com a contagem de bactérias hospitalares.

“Eu entendi que não era normal. Até conversei com uma enfermeira que trabalha comigo, ela falou um caso ou outro é até normal de acontecer, de uma bactéria tão forte. Só que tantos casos não é normal. Não é normal… Aí tem a ver com alguma outra questão de organização, de higiene”, lamentou a mãe.

Investigação policial e atuação jurídica Atualmente, a Secretaria da Segurança Pública apura seis casos de crianças, com idades entre zero e três anos, que faleceram após contraírem infecções e quadros de sepse na instituição desde o início do ano. Os registros foram oficializados em agosto. A investigação conduzida no 8º Distrito Policial recolhe depoimentos e prontuários médicos.

Por outro lado, a defesa de famílias afetadas aponta um número ainda maior de ocorrências. A assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes, representante de três mães, afirma que pelo menos 19 famílias perderam filhos em cirurgias na mesma unidade nos últimos seis meses.

“Esperamos que tudo seja esclarecido, que as mães tenham o que estão procurando, que é um pouco de conforto em meio a tanta dor, com tantas perdas”, afirmou a advogada, que também criticou a justificativa clínica apresentada pelo hospital sobre as condições prévias dos pacientes.

“De forma muito desumana, eles dizem que as crianças faleceram por suas particularidades e doenças graves, o que não foi o caso, não condiz com a verdade”, complementou.

Sentimento de culpa e busca por respostas Leticia relata o forte impacto psicológico vivido após a perda da filha, mencionando um sentimento recorrente de autocrulpa compartilhado por outras mulheres na mesma situação.

“É um sentimento, às vezes, de culpa, de não ter feito mais. Eu acho que todas as mães a gente acaba tendo isso em comum, de se culpar por não ter feito mais, de não ter noção. A gente se culpa por coisas que a gente não tem culpa”, desabafou.

A mãe também destacou que a ausência de esclarecimentos claros durante o período de internação prejudicou a compreensão da gravidade dos episódios infecciosos.

“A gente fica nessa expectativa agora de querer justiça pelos nossos filhos, de apurar os casos, de entender o que realmente aconteceu. Só posso aguardar e esperar que a justiça seja feita”, concluiu.

Posicionamento da instituição de saúde Em nota oficial, o Hospital Salvalus declarou que não havia recebido notificação formal sobre os procedimentos citados e que permanece à disposição das autoridades. A instituição destacou que atende casos de alta complexidade e que as avaliações preliminares indicam históricos clínicos distintos, sem evidências técnicas de uma origem infecciosa comum entre os pacientes atendidos.

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