O consumidor brasileiro pode encontrar a carne de frango mais barata nos próximos meses, com reflexos mais evidentes na Região Sul. A projeção consta em um relatório divulgado nesta sexta-feira (23) pelo banco Itaú BBA, motivada pela confirmação de um foco da doença de Newcastle no município catarinense de Nova Itaberaba.
Impacto nas exportações e na oferta interna
A tendência de baixa nos valores cobrados pelo alimento decorre diretamente da interrupção das vendas externas de carne avícola produzida em Santa Catarina. Nações como China, Arábia Saudita, Chile e México comunicaram na mesma semana a suspensão temporária da importação do produto estadunidense e catarinense. Como Santa Catarina direciona cerca de 63% de sua produção ao mercado internacional — índice superior à média nacional de 37% —, o estado sente o baque com maior intensidade.
Diante da restrição de compradores estrangeiros, os frigoríficos locais podem ser obrigados a direcionar ao mercado interno o volume excedente que seria exportado. Essa dinâmica tende a elevar a disponibilidade do produto, sobretudo no Sul do país, forçando as empresas a praticarem tarifas menores para escoar os estoques e evitar problemas com armazenagem, logística e fluxo de caixa.
Contexto inflacionário e produção em alta
Enquanto o cenário externo sofre reviravoltas, a inflação doméstica recente mostra variações mistas. Na prévia da inflação de outubro, o frango em pedaços registrou alta mensal de 0,71%, embora o acumulado em 12 meses ainda apresente recuo de 4%, conforme dados do IBGE. Vale lembrar que a doença de Newcastle é uma infecção viral que acomete aves domésticas e silvestres, gerando problemas respiratórios e neurológicos severos nos animais, mas sem qualquer risco de transmissão aos humanos por meio do consumo da carne.
A perspectiva de um mercado interno superfertado coincide com um momento de expansão na atividade avícola nacional. Entre janeiro e setembro, o abate de aves cresceu 3,7% na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto o volume total de carne produzida saltou 6,2%, segundo levantamento do Itaú BBA, que aposta em um avanço anual de 6%. Até o momento, essa alta na produção não provocou queda de preços graças ao ritmo forte das exportações e à preferência do consumidor pelo frango como alternativa mais econômica em relação à carne bovina.
Perspectivas para o primeiro trimestre
O equilíbrio atual, no entanto, tem grandes chances de se alterar após a virada do ano. Além da maior retenção de carne no país decorrente dos embargos sanitários, o primeiro trimestre é historicamente marcado por uma retração na demanda das famílias, pressionadas pelo fim do décimo terceiro salário e pelo acúmulo de despesas sazonais como impostos e material escolar.
Apesar da expectativa de retração nas cotações do atacado sulista, o Itaú BBA pondera que a queda pode não chegar integralmente ao consumidor final nos supermercados. O preço no varejo é composto por diversas etapas que incluem processamento, transporte, armazenagem e margens comerciais, fatores que podem amortecer o repasse do desconto.
Por fim, o banco destaca que a magnitude e a duração desse reflexo nos preços dependerão estritamente da velocidade com que os parceiros comerciais retomarão as compras do produto brasileiro. O histórico recente serve de parâmetro: enquanto em 2024 um foco no Rio Grande do Sul gerou restrições de apenas um mês sem alterar os preços, o episódio de gripe aviária em 2025 durou cerca de quatro meses e arrefeceu as cotações. A avaliação atual é de que o evento presente se posicione em um patamar intermediário, com foco restrito a Santa Catarina e ao atacado sulista.






