Uma pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo encontrou vestígios de fentanil na saliva de 32% dos usuários de canabinoides sintéticos analisados na cidade de São Paulo. O dado mais alarmante levantado pelo levantamento é que nenhum dos voluntários relatou ter consumido conscientemente a substância.
Perfil dos voluntários e sintomas graves O trabalho científico acompanhou 65 pessoas atendidas em redes de apoio e tratamento psicossocial na capital paulista, todas com histórico recente de consumo das drogas conhecidas popularmente como K2 ou K9 nos quatro dias anteriores à abordagem. O exame toxicológico foi realizado por meio de amostras salivares coletadas pelo laboratório especializado da instituição.
Entre os indivíduos que testaram positivo para o opioide, os pesquisadores notaram uma incidência muito maior de quadros clínicos severos, a exemplo de fortes dores musculares, episódios de náusea e vômito. A contaminação sem consentimento mostrou-se ainda mais recorrente entre pessoas em situação de rua e cidadãos com histórico prolongado de dependência desses entorpecentes sintéticos.
Surpresa entre especialistas e risco de dependência O fentanil é um poderoso analgésico de uso médico controlado, cuja exposição acidental pode desencadear depressão respiratória aguda e óbito por overdose em indivíduos sem tolerância prévia. Os autores do estudo ressaltam que ainda não é possível cravar a via exata de contaminação, que pode ter ocorrido por mistura clandestina ou uso de outras substâncias não declaradas.
A presença do composto pegou os cientistas de surpresa, principalmente devido ao baixo valor pago pelas drogas nas ruas.
“A gente realmente não esperava, justamente por o fentanil ser um opioide sintético de uso restrito. As pessoas com quem a gente falou diziam que essa substância custava R$ 1, R$ 5. Então, como encontrar o fentanil, que é uma substância cara, um medicamento caro, numa droga tão barata?”, afirma Lígia.
Para o professor e pesquisador Maurício Yonamine, a adulteração intencional tem um objetivo claro por parte do narcotráfico.
“Obviamente, o traficante está fazendo isso com esse intuito: causar mais dependência nas pessoas, causar mais vício e fazer com que elas procurem mais a droga”, afirma.
Desafios no atendimento de emergência Parte do material analisado veio de pacientes vinculados ao Instituto Perdizes. O psiquiatra Guilherme Kortas aponta que a adulteração oculta complica o socorro médico de urgência.
“É muito preocupante porque as pessoas estão ingerindo essa substância sem ter consciência disso. Muitas vezes, no pronto-socorro, as equipes médicas não vão estar atentas para uma intoxicação por fentanil, para fechar um diagnóstico correto e estabelecer o tratamento correto”, diz Kortas.
Investigação policial e alerta de epidemia Enquanto órgãos de segurança pública investigam o desvio de hospitais ou a importação clandestina do material, a Polícia Civil busca mapear as rotas desse comércio ilegal. O diretor do Denarc, Carlos Castiglioni, explica que os agentes estão cruzando dados de farmácias e unidades de saúde.
“Já estamos começando a fazer um paralelo entre o que é comprado e o que é consumido nos hospitais para ver se é daí mesmo, se é só através de desvio da rede hospitalar, de laboratórios, ou, o que seria mais alarmante e preocupante, se esse fentanil está sendo produzido ou até trazido de fora de maneira clandestina”, afirma Castiglioni.
Para frear o avanço do problema antes que atinja proporções catastróficas semelhantes às de nações norte-americanas, a doutorã e primeira autora do estudo, Ligia Goes Endo, defende ações integradas.
“O monitoramento constante do mercado de drogas é fundamental para orientar estratégias de redução de danos, atualizar os protocolos médicos de emergência – inclusive no uso de medicamentos como a naloxona para reverter overdoses – e evitar crises de saúde pública semelhantes às observadas em outros países”, afirma Ligia Goes Endo.
Ela reforça que o momento exige vigilância ativa por parte do poder público:
“Se a gente conseguir barrar esse uso agora e ter uma vigilância epidemiológica um pouco mais forte em relação a isso, talvez a gente consiga não ter uma epidemia como a que existe nos Estados Unidos”, afirma.






