As ações climáticas adotadas até o momento são insuficientes para impedir que a temperatura média do planeta ultrapasse o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, considerado crucial para evitar os impactos mais graves das mudanças climáticas. A constatação é a principal revelação da 17ª edição do Relatório sobre a Lacuna de Emissões, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Cenários de temperatura para os próximos anos De acordo com o documento, caso os países cumpram integralmente todas as suas promessas climáticas atuais, a temperatura terrestre ainda apresentará uma alta de 2,6°C até o ano 2100. Por outro lado, se apenas as políticas vigores forem mantidas, o aquecimento poderá alcançar 2,8°C ainda neste século, mantendo uma trajetória contínua de alta.
A organização aponta que décadas de respostas lentas tornaram inevitável o rompimento da meta de 1,5°C na média de longo prazo. Contudo, a ONU ressalta que reverter esse cenário e retornar ao patamar desejado até o final do século ainda é viável, desde que ocorra uma guinada profunda nas políticas globais de descarbonização.
Cortes drásticos nas emissões são necessários Para conseguir conter e reverter a alta térmica, limitando o pico entre 1,7°C e 1,8°C por volta de 2050 antes de uma queda gradual para 1,5°C em 2100, o mundo precisará adotar metas muito mais agressivas. Os cortes exigidos nos gases de efeito estufa em relação aos níveis de 2025 são de 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040.
Em contraste, o cumprimento total das promessas atuais geraria reduções modestas, variando de 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035. Diante disso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou a necessidade urgente de ação em mensagem oficial.
“Ultrapassar o limite não significa rendição”, declarou.
Segundo Guterres, o ritmo de corte precisa alcançar quase 6% ao ano até 2035 para realinhar a humanidade com as ambições estabelecidas pelo Acordo de Paris, firmado em 2015.
Riscos ampliados com o calor extremo O prolongamento do aquecimento acima de 1,5°C eleva exponencialmente a probabilidade de eventos severos e desastres naturais, como ondas de calor extremas, secas prolongadas, inundações, incêndios florestais e perdas definitivas em ecossistemas vulneráveis, a exemplo dos recifes de coral e grandes massas de gelo.
“Cada fração adicional de grau e cada ano a mais de aquecimento acima de 1,5°C aumentam os impactos climáticos”, afirmou Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
Mesmo no panorama mais otimista projetado pela instituição, a chance de recuperar a meta de 1,5°C até 2100 é de aproximadamente 50%. Para alcançar esse objetivo, além da redução imediata de poluentes, seria preciso remover cerca de 320 bilhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera por meio de reflorestamento e tecnologias de captura até o final do século.
Desafios e avanço das energias limpas As emissões globais continuam estagnadas em patamares elevados, somando cerca de 58,4 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2025. O documento aponta que o G20 responde por 76% das emissões mundiais, mas apenas seis nações do grupo — China, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia — possuem políticas atuais capazes de cumprir as metas para 2030. O Brasil não figura nesta lista.
Apesar dos obstáculos nas negociações internacionais e da saída dos Estados Unidos do pacto climático, o relatório destaca um crescimento expressivo na adoção de energias renováveis. A capacidade global de geração limpa expandiu três vezes mais rápido do que o esperado desde 2015, com destaque para a energia solar, cuja expansão superou em sete vezes as estimativas iniciais. Para a ONU, expandir essas alternativas em larga escala é a única maneira de evitar que as projeções mais pessimistas se concretizem.






