O município de Campinas (SP) registrou 166 ocorrências de intoxicação infantil entre janeiro e outubro de 2026, superando o total contabilizado em todo o ano anterior e gerando preocupação entre profissionais de saúde.
Riscos dos produtos corrosivos
O avanço nos números destaca o perigo de substâncias de uso doméstico, especialmente aquelas que contêm soda cáustica, capazes de gerar queimaduras graves e deixar sequelas definitivas na população infantil.
O alerta é reforçado pela pediatra Camila Prado, vinculada ao Centro de Informações Toxicológicas (CIATox) da Unicamp, que aponta a severidade desses episódios logo após a ingestão ou o contato.
“Produtos corrosivos podem cursar com intoxicações muito graves. Os cáusticos provocam queimaduras nos tecidos. Se houver contato com os olhos, podem causar queimaduras oculares; na pele, lesões importantes; e, em caso de ingestão, queimaduras no trato gastrointestinal”, explica a especialista.
A médica acrescenta que os quadros mais complexos podem evoluir para perfurações, sangramentos e limitações permanentes na capacidade de alimentação.
“Às vezes, mesmo que não ocorra um quadro fatal, o paciente pode ficar com sequelas que dificultem a alimentação para o resto da vida. Então pode ser bastante grave”, afirma.
Perfil das ocorrências
Desde 2020, o município contabilizou 954 acidentes tóxicos envolvendo menores de 12 anos, sendo que 76% dos episódios concentraram-se na faixa etária entre 1 e 4 anos.
Para a pediatra, essa predominância ocorre devido ao comportamento natural de exploração dessa fase do desenvolvimento.
“É aquela idade em que a criança já consegue explorar o ambiente, começou a andar, consegue abrir alguns locais e ainda não tem ideia de risco e perigo. Essa exploração acaba aumentando a exposição”, explica Camila Prado.
Os registros da prefeitura indicam que os remédios lideram as ocorrências, respondendo por 38,4% dos casos, seguidos pelos materiais de limpeza, que somam 28,6%.
Outros itens que merecem atenção redobrada incluem água sanitária, desinfetantes, removedores, pilhas, baterias, inseticidas, venenos para roedores, produtos de jardinagem e plantas venenosas, como a comigo-ninguém-pode, a espada-de-são-jorge e a mamona.
Condutas em situações de emergência
Em caso de acidentes domésticos, a recomendação médica consiste em buscar socorro médico de urgência imediatamente, evitando práticas caseiras perigosas.
Os especialistas reforçam que jamais se deve induzir o vômito ou administrar leite e alimentos por iniciativa própria, pois tais ações podem piorar o quadro clínico. A orientação é levar a embalagem da substância para auxiliar no diagnóstico hospitalar.
Moradores da região podem obter orientações junto ao Ciatox da Unicamp pelos telefones (19) 3521-7555 e (19) 3521-6700.
Prevenção no ambiente doméstico
Diante dos riscos, famílias adotam medidas rigorosas de segurança, mantendo substâncias químicas e medicamentos em locais elevados e armários trancados.
A dona de casa Uri Vaz, mãe da bebê Olívia, de 10 meses, adota precauções diárias e orienta as filhas mais velhas, de 10 anos, sobre os perigos aparentes dos produtos.
“O organismo do pequenininho ainda não está acostumado com nada. A gente não sabe o que pode acontecer”, afirma.
“A gente sempre fala que não é porque é cheiroso que pode colocar na boca”, avisa.






