Erguida para suportar a brutal energia de um dos maiores conjuntos de quedas d’água do planeta, a passarela de observação no Parque Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná, é um marco da engenharia nacional. Projetada para resistir mesmo submersa pela força do Rio Iguaçu, a estrutura já enfrentou vazões extremas sem sofrer abalos fundamentais, superando testes históricos como a cheia recorde de 46 milhões de litros por segundo registrada em 2014.
Fixação direta no leito rochoso com estaca-raiz
O segredo para a estabilidade da travessia turística está oculto debaixo d’água. Em vez de simplesmente repousar no fundo, os pilares foram cravados profundamente no maciço de basalto por meio do método de estaca-raiz. Essa tecnologia envolve a perfuração da rocha viva, a inserção de armaduras metálicas e a injeção de calda de cimento sob alta pressão.
Diretor de engenharia da Fungeo, empresa que executou as fundações, Vinicius Lorenzi explica a escolha do modelo construtivo. “A estaca-raiz é uma estaca que faz embutimento na rocha e isso faz com que ela absorva grandes esforços. É um tipo de fundação que nós utilizamos em várias outras obras em Foz do Iguaçu”, explicou Lorenzi.
Ainda de acordo com o especialista, o cálculo estrutural precisa compensar não apenas a circulação de pedestres ou o impacto de troncos arrastados pela enchente, mas principalmente a imensa pressão contínua gerada pelo fluxo das águas correntes.
Desvio de rio e desafios na obra de 1992
A passarela que recebe os visitantes atualmente foi concebida para substituir uma passagem anterior, montada em 1970 e destruída por uma forte cheia na década de 1980. Iniciada em 1992, a reconstrução demandou manobras arriscadas para secar o trecho onde os operários atuariam.
Na primeira tentativa de contenção, um bloqueio montado próximo às quedas cedeu após uma inundação repentina. Márcio Marcon, engenheiro que participou da execução do projeto, relembrou os percalços. “Durante a execução da obra, foram pelo menos duas enchentes similares a essa. Em uma delas, a gente perdeu equipamentos, obviamente nunca mais encontramos. Mas a parte de concreto ficou absolutamente intacta”, afirmou Marcon.
Para contornar o problema, a equipe mudou o planejamento e realizou um novo desvio a quilômetros dali. Com o leito temporariamente esvaziado, grupos de 20 a 30 profissionais conseguiram finalmente perfurar a rocha e concretar os pilares definitivos.
Protocolos de monitoramento e liberação para turistas
Atualmente sob gestão da concessionária Urbia+Cataratas, a estrutura passa por rigoroso acompanhamento tecnológico. Prismas ópticos instalados em posições estratégicas permitem que equipamentos de precisão topográfica identifiquem oscilações milimétricas nos apoios.
Segundo André Franzini, gerente de sustentabilidade da concessionária, o sistema comprova a firmeza do projeto. “Desde que a gente assumiu, que a gente começou a fazer esse monitoramento, nunca teve nenhuma alteração, nem que seja milimetricamente”, afirmou Franzini.
Além das medições rotineiras, as cheias ativam um protocolo rigoroso de reabertura. Durante enchentes severas, as grades de segurança são retiradas previamente e só voltam a ser instaladas após a vazão baixar para menos de 8 milhões de litros por segundo. O retorno do público depende ainda de laudos estruturais detalhados e do acompanhamento das condições hidrológicas nos reservatórios das usinas da bacia hidrográfica.






