A poucos dias da primeira votação para formar um novo governo desde o início do conflito, a sociedade de Israel vive um momento de forte divisão interna. A antiga discussão sobre a criação de um Estado palestino perdeu espaço para a segurança nacional, que agora domina o centro das preocupações da população.
A ausência de uma comissão independente para apurar as falhas que antecederam o massacre de judeus gerou novos atritos entre o gabinete de Benjamin Netanyahu, os opositores e a Suprema Corte.
Campanhas eleitorais agressivas e vazias As disputas eleitorais têm se destacado pelo tom agressivo e pela falta de propostas concretas. A polarização política atual dificulta o diálogo entre diferentes correntes sociais, priorizando ataques e ressentimentos em detrimento de planos de governo claros.
Apesar desse cenário de racha interno, o país mantém sua solidez estrutural após enfrentar uma invasão severa e a abertura de múltiplas frentes de combate, crises que teriam enfraquecido muitas outras nações ao redor do globo.
A força da identidade histórica Historicamente, o povo judeu acumula milênios de sobrevivência a conflitos e expulsões na região. Com a fundação do Estado moderno, a proteção da população passou a contar com soberania própria, inteligência estratégica e forças armadas, rompendo com a dependência histórica de governos estrangeiros.
De uma população de 600 mil judeus em 1947, o país saltou para cerca de 8 milhões, impulsionado por ondas migratórias vindas da Europa, da antiga União Soviética e da África.
Integração e resiliência social A absorção de culturas e idiomas diversos gerou um forte impulso empreendedor e um profundo sentimento de pertencimento. Mesmo durante o estado de guerra, o país registrou a maior taxa de fecundidade entre os membros da OCDE, com cerca de 2,8 filhos por mulher, refletindo a confiança na continuidade da sociedade.
Na economia, o Banco de Israel projetou taxas de crescimento expressivas para os próximos anos, provando que a estrutura financeira resiste aos elevados custos do conflito.
Identidade dualística e união nacional “A sociedade israelense tem uma identidade dualística, que personifica simultaneamente o individualismo liberal do Ocidente e a resiliência tradicional do Oriente Médio”, afirma o filósofo e escritor israelense Micah Goodman. Essa essência compartilhada atenua as divergências partidárias. “É como se nós disséssemos ‘eu te odeio porque você vota em tal candidato, mas eu te amo porque você é israelense’”, resume Goodman.
Diplomacia e acordos regionais No cenário externo, a imagem do país sofreu com campanhas de desinformação, mas as alianças diplomáticas continuaram firmes. Os pactos com Egito e Jordânia foram preservados, assim como os Acordos de Abraão, que ampliaram as relações com nações árabes.
A construção da nova sede da embaixada dos Emirados Árabes Unidos na região metropolitana de Tel Aviv reforça essa estabilidade. A geopolítica regional também apresentou pragmatismo recente, como a abertura saudita para cooperações veladas e o suporte em situações de emergência aérea envolvendo passageiros israelenses.
Apesar dos desafios persistentes e da vulnerabilidade não ser mais a marca definitiva da existência judaica, o país segue provando sua capacidade de adaptação. Como observou o autor Nachum Kaplan, Israel passou por uma transformação clara: “A vulnerabilidade já não é o que define a condição da existência judaica”.






