Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Embrapa Solos desenvolveram um mapeamento inédito para identificar os municípios brasileiros mais suscetíveis à poluição difusa gerada pelas atividades agropecuárias. O levantamento prioriza áreas rurais que necessitam de atenção urgente no monitoramento da qualidade da água, considerando também a fragilidade das fontes hídricas frente aos impactos das mudanças climáticas.
Complexidade da poluição difusa nas lavouras
A contaminação dos recursos hídricos ocorre através de vias pontuais e difusas. Enquanto esgotos e efluentes industriais representam fontes pontuais de fácil controle, a dinâmica rural apresenta desafios maiores.
Conforme explicou o pesquisador da Embrapa Solos Alexandre Ortega, “já as fontes difusas apresentam comportamento muito mais complexo. Elas resultam do escoamento superficial das águas da chuva, que transportam resíduos provenientes das áreas rurais, como fertilizantes, defensivos agrícolas, sedimentos e nutrientes, até rios, córregos e reservatórios”.
Para estruturar o diagnóstico, o trabalho coordenado pela pesquisadora Rachel Prado utilizou cinco indicadores principais: a entrega de fertilizantes por cultura, a quantidade de rebanhos, a área de fertirrigação da cana, o balanço hídrico e a erodibilidade do solo.
Mato Grosso, Matopiba e o foco em nitrogênio e fósforo
As regiões consideradas mais críticas estão localizadas principalmente em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e na fronteira agrícola do Matopiba, que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Pontos isolados nos Estados de São Paulo e Paraná também exigem alta prioridade de monitoramento devido ao uso massivo de insumos agrícolas e características ambientais que facilitam o escoamento de sedimentos.
O foco principal do estudo recai sobre a contaminação por nitrogênio e fósforo, elementos presentes na maioria dos adubos. Dados do setor indicam um salto expressivo no consumo brasileiro, que passou de 14,7 milhões de toneladas em 1998 para 45,6 milhões em 2024, com projeção de alcançar 65 milhões de toneladas até 2050.
Metodologia e o cruzamento de dados geoespaciais
A equipe científica integrou grandes bases de dados nacionais por meio de Sistemas de Informação Geográfica. Cada variável analisada recebeu notas de 1 a 5, permitindo a construção de dois mapas síntese fundamentais.
O primeiro aponta os municípios prioritários com base estritamente nas fontes difusas da agropecuária. Já o segundo acopla a vulnerabilidade climática, avaliando o balanço hídrico quantitativo e a propensão à erosão hídrica em cada localidade.
Estratégias para garantir a segurança hídrica
De acordo com os especialistas, cerca de metade do nitrogênio aplicado nas lavouras acaba se perdendo por meio de infiltrações ou escoamento pluvial, gerando prejuízos econômicos e ecológicos. Em períodos de chuvas intensas, o problema se intensifica drasticamente em bacias com solo desprotegido.
Para reverter esse cenário, o estudo recomenda a adoção rigorosa de técnicas de conservação do solo, o manejo eficiente de fertilizantes e a preservação da vegetação nativa em zonas ripárias. Tais medidas são indispensáveis para evitar desperdícios nas lavouras e assegurar a segurança hídrica do país.






