Dez integrantes da Bamor, principal torcida organizada do Esporte Clube Bahia, foram presos em Salvador sob a acusação de promoverem sessões de tortura física e psicológica no subsolo da sede da entidade. A operação policial resultou na detenção da cúpula da associação, incluindo o presidente Matheus Pires Castro e o vice-presidente Luciano Silva Venâncio, apontados pelas investigações como mandantes e executores das violências.
Investigação detalha o planejamento das agressões De acordo com as apurações conduzidas pelas autoridades, os crimes ocorriam para forçar confissões sobre supostos desvios internos de dinheiro na instituição. Áudios enviados pelo dirigente máximo da torcida ao grupo da diretoria demonstravam a premeditação dos atos: “Aí, amanhã a gente vai pegar ele daquele jeito vai ser uma cena triste”, diz Matheus em uma das gravações, completando com instruções para levarem alicates para arrancar unhas e afirmando que o alvo teria a “mão esmagada”.
Relatos de vítimas revelam crueldade na sede O Ministério Público da Bahia (MP-BA) detalhou que os espancamentos duravam horas na sala da diretoria. Um ex-integrante que cuidava do cadastro de associados foi convocado sob acusação de ativar planos de sócios sem repassar os valores e relatou o nível de violência: “A gente sentou em mesa de reunião, foi aí que começaram a me bater com o martelo primeiro, depois pegaram a minha mão, atravessaram minha mão de faca, me deram quatro facadas na mão e pegaram um taco de beisebol, de madeira, que começaram a deferir golpes de taco em mim. Botaram um saco na minha cabeça pra me sufocar”. Ele acrescentou que cerca de dez membros participaram das agressões por quatro horas, fazendo ameaças contra seus familiares e deixando sequelas psicológicas profundas: “São atos que é difícil até de falar. Eles foram bastante claros que iriam me matar”.
Outro caso envolve prestador de serviços Um prestador de serviços de tecnologia da torcida passou por dinâmica semelhante ao ameaçar procurar a polícia após ser acusado de fraudes. “E aí eu comecei a ser agredido com esse taco de beisebol, nas pernas, no braço, nas costas, e aí na sequência muito chute, muito pontapé. Nessa sala estava o presidente, o vice-presidente”, conta, acrescentando que o presidente dava ordens para matá-lo. Durante o espancamento, ele foi obrigado a fornecer senhas bancárias e teve mais de R$ 5 mil subtraídos de sua conta.
Apreensões e denúncia formal do Gaeco No dia seguinte aos abusos, ao buscar a delegacia, a vítima recebeu ligações de membros tentando impedir o registro do boletim de ocorrência. “Essas vítimas foram convidadas a ali comparecer e foram submetidas a intenso sofrimento, orquestrado, orientado e coordenado pela direção daquela entidade”, afirma o promotor Tiago Quadros, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Uma ação conjunta do MP-BA com as polícias Civil e Militar cumpriu 15 mandados de busca e apreensão, recolhendo martelos, alicates e um taco de beisebol na sede do grupo. Os suspeitos foram formalmente denunciados por organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça, sendo que alguns já acumulavam antecedentes por crimes como homicídio, tráfico de drogas, estelionato e violência doméstica, conforme apontado pela Polícia Civil.
Contexto de violência no futebol baiano O episódio acontece em um cenário de rigorosas restrições para conter a violência entre torcidas na capital baiana, que inclui a adoção de torcida única em clássicos desde 2017 e punições recentes de seis meses de suspensão para Bamor e Imbatíveis após confrontos generalizados nas ruas. A defesa de Matheus Pires e Luciano Venâncio declarou em nota “que seus clientes são inocentes” e que “todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas”.






