Ampliar a gratuidade em eventos como exibições de filmes, apresentações musicais e mostras artísticas desponta como a maior cobrança da sociedade direcionada aos futuros administradores públicos. O levantamento Hábitos Culturais, divulgado em outubro de 2026, aponta que 42% dos cidadãos consideram essa a prioridade máxima para o setor.
Desigualdade socioeconômica no acesso à arte
Embora a legislação máxima do país assegure o direito à cultura para todos, o abismo social reflete diretamente nas opções de lazer da população. Enquanto quase a totalidade das classes A e B (97%) marcou presença em algum evento cultural presencial no último ano, o índice desaba para 82% entre os mais vulneráveis das classes D e E.
O abismo é ainda mais gritante em setores específicos. No caso das salas de exibição cinematográfica, 63% dos cidadãos de maior poder aquisitivo conseguiram frequentar o espaço nos últimos 12 meses, ao passo que apenas 18% da base da pirâmide socioeconômica tiveram a mesma oportunidade.
“Como é possível observar por meio dos dados, o acesso à cultura realmente ainda é bastante desigual, sobretudo quando observamos pela perspectiva socioeconômica ou até mesmo de níveis de escolaridade entre os brasileiros”, diz a coordenadora do Observatório da Fundação Itaú, Ana Maria Cardoso.
“Apesar das disparidades, tais dados não significam que pessoas das classes sociais mais baixas ou com menor escolaridade deem menor valor à cultura; ao contrário, o que a pesquisa mostra é que existem barreiras que vão além da subjetividade individual ou mesmo do gosto pessoal que interferem diretamente nesse acesso”, declara.
Preços altos e falta de opções locais
Os custos envolvidos — que englobam desde os bilhetes de entrada até os gastos com deslocamento — representam o principal entrave para 35% dos entrevistados que deixam de comparecer a atrações presenciais. Entre aqueles que conseguem consumir algum tipo de produto artístico, quase metade (46%) gasta até R$ 100 mensais com essas atividades.
Além do fator financeiro, um terço dos consultados (33%) relata que sequer existem opções de equipamentos culturais nas localidades onde residem, evidenciando a carência de infraestrutura em várias regiões do território nacional.
Violência e insegurança afastam o público
O receio da criminalidade ocupa a segunda posição entre os motivos que desencorajam o público, sendo citado por 30% dos participantes. O temor de sofrer furtos ou roubos nas imediações dos locais de entretenimento atinge 47% dos ouvidos, enquanto a escassez de policiamento preocupa 43% deles.
Questões ligadas à integridade física também ganharam destaque, com 27% de menções a episódios de assédio ou violência direcionada às mulheres dentro desses recintos. O índice subiu 6 pontos percentuais em relação ao estudo anterior, gerando apreensão em 38% das mulheres ouvidas, comparado a 14% entre os homens.
O que a população exige dos novos governantes
Para contornar o cenário de exclusão, 32% dos brasileiros defendem a construção de novos espaços públicos, a exemplo de teatros e centros de memória. Outros 28% priorizam a revitalização de estruturas já existentes, e 26% cobram subsídios para produções independentes.
“Os dados indicam que existem caminhos para avançar, tanto no que se refere à importância de fortalecer e ampliar a oferta de atividades culturais gratuitas, quanto na própria expectativa e entendimento da população sobre o direito cultural, uma vez que 32% da população dizem não saber que o acesso à cultura está garantido na Constituição e 27% afirmam não saber o que significa ter direito à cultura”, disse Cardoso.
A coleta de informações da sétima edição do estudo foi realizada pelo Observatório Fundação Itaú com suporte metodológico do Datafolha. O trabalho de campo ocorreu entre 7 e 20 de julho de 2026, ouvindo 2.448 indivíduos de 16 a 65 anos de forma presencial em 137 cidades de todo o país.






