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França decreta toque de recolher após protestos violentos

Primeiro-ministro francês culpa grupos de extrema-esquerda por 'plano insurrecional' nos distúrbios do fim de semana

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, acusou nesta terça-feira (20) grupos radicais de extrema esquerda de elaborar um “plano insurrecional” que levou a tumultos violentos no fim de semana, à margem de protestos realizados em todo o país contra o custo de vida. Cidades francesas decretaram toque de recolher para tentar conter a onda de caos.

Crise política e acusações no Parlamento

Durante uma tumultuada sessão do Parlamento, Lecornu condenou “o planejamento, em determinados locais, de um plano insurrecional liderado por grupos de extrema esquerda e setores radicais da esquerda”. O chefe de governo acrescentou que as autoridades não tolerariam que esses grupos “marchassem até o Eliseu ou Matignon”.

Segundo o primeiro-ministro, há uma ala política que quer provocar “uma profunda agitação no país” para influenciar as eleições presidenciais de 2027. Serviços de inteligência indicaram ao governo que a mobilização teria sido iniciada pela extrema esquerda em uma operação orquestrada pelo partido França Insubmissa, legenda que nega as acusações.

Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa e possível candidato à Presidência, cobrou provas das acusações feitas publicamente pelo primeiro-ministro. “Caso contrário, ele deveria se desculpar, ficar em silêncio e parar de atiçar as chamas da agitação”, disse em entrevista.

Origem estudantil e insatisfação geral

O movimento começou em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos. Os alunos reivindicavam melhores condições nas salas de aula, mais professores e mais recursos financeiros, relatando superlotação e falta de estrutura básica. Os atos ocorreram em meio à alta rejeição ao governo do presidente Emmanuel Macron e à proposta de Orçamento para 2027, que prevê o congelamento do salário-base dos funcionários públicos.

O que começou como uma mobilização estudantil se transformou em uma manifestação de insatisfação generalizada com o alto custo de vida, a queda na qualidade dos serviços públicos e a gestão federal, espalhando-se por outras nações como Itália, Albânia e Portugal.

Destruição em Paris e Marselha

Cerca de 500 mil pessoas tomaram as ruas da França no último fim de semana. Paris e Marselha registraram forte destruição, com portas de boutiques de luxo quebradas e vitrines danificadas em marcas como Dior, Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci. A loja oficial do Olympique de Marseille e a filial de Bordeaux das Galerias Lafayette também foram saqueadas. A Federação do Comércio e Varejo estimou que quase 3 mil lojas foram afetadas.

Para conter a violência, 60 mil policiais e agentes de segurança foram mobilizados no sábado. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu que o efetivo foi insuficiente. Apenas no sábado, cerca de 2.400 pessoas foram presas, quase mil policiais ficaram feridos e um manifestante morreu após sofrer uma parada cardíaca.

Pronunciamento oficial e medidas de segurança

O presidente da França, Emmanuel Macron, fez um pronunciamento na TV no domingo (18) afirmando que “nada justifica” a violência “desenfreada” e que é preciso separar as reivindicações legítimas dos atos de destruição. Na segunda-feira (19), autoridades impuseram toques de recolher em áreas de Paris, Lille e Nice.

Para o cientista político Thomás Zicman de Barros, governo e oposição podem se aproveitar da violência para defender medidas duras de segurança, embora o pesquisador alerte que focar apenas na ordem pública mascara as demandas populares. “Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma.

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