As principais declarações econômicas e sociais ditas por Flávio Bolsonaro e Lula durante o debate presidencial do segundo turno foram analisadas por especialistas para verificar a veracidade dos dados apresentados.
Checagem das falas sobre economia e programas sociais
Entre as declarações verificadas, a menção sobre o montante da dívida pública foi considerada verdadeira. O Banco Central informou, em nota publicada em 30 de setembro de 2026, que a Dívida Bruta do Governo atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador reúne as dívidas do governo federal, do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), dos estados e dos municípios. Assim, o valor não se refere exclusivamente à dívida do governo federal. Ao final de 2022, ano anterior ao início do terceiro mandato de Lula (PT), a Dívida Bruta do Governo havia atingido R$ 7,2 trilhões, o equivalente a 73,5% do PIB da época.
Sobre a evolução do Bolsa Família, a afirmação foi classificada como não sendo bem assim. O benefício chegou a R$ 600, em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), mas com participação do Congresso, e não só do Executivo. Segundo a Câmara dos Deputados, o Bolsa Família pagava, em média, cerca de R$ 189 em 2021, antes de ser substituído pelo Auxílio Brasil. A primeira etapa do aumento teve iniciativa de Bolsonaro. De acordo com a Câmara, a Medida Provisória 1.076/2021, editada pelo então presidente, criou um complemento para que as famílias recebessem ao menos R$ 400. Após aprovação do Congresso, a medida deu origem à Lei 14.342/2022, que tornou esse valor permanente. A elevação de R$ 400 para R$ 600, por outro lado, veio por uma emenda aprovada e promulgada pelo Congresso. A Emenda Constitucional 123, de 14 de julho de 2022, estabeleceu um adicional de R$ 200 apenas de agosto a dezembro daquele ano. Por ser uma emenda constitucional, não precisava de sanção de Bolsonaro nem estava sujeita a veto presidencial. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em 17 de setembro de 2026, a 17 dias do primeiro turno, o governo Lula anunciou uma atualização de 15,04% nos benefícios do Bolsa Família, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691, com pagamentos a partir de 19 de outubro. A pasta informou que essa é a primeira correção pela inflação desde a reformulação do programa, em 2023, e recompõe o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado entre março daquele ano e agosto de 2026.
Análise de processos judiciais e dados de segurança
No que tange às menções sobre condenações judiciais, a checagem apontou que a parte referente às instâncias inferiores é verdadeira, enquanto a menção ao Supremo Tribunal Federal é falsa. O presidente Lula (PT) foi condenado em primeira, segunda instância e no STJ nos processos do Triplex do Guarujá e do Sítio de Atibaia, ambos no âmbito da Operação Lava Jato. A condenação inicial, em primeira instância, foi proferida em 12 de julho de 2017, quando o então juiz federal Sergio Moro, que comandava a 13ª Vara Federal de Curitiba, fixou pena de 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do Triplex — Lula havia sido acusado de receber o imóvel como propina da empreiteira OAS em troca de contratos na Petrobras. A segunda condenação, também em primeira instância, veio em 6 de fevereiro de 2019, assinada pela juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro, que determinou 12 anos e 11 meses de reclusão no processo do sítio de Atibaia, em que ele foi acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.. A defesa de Lula recorreu das duas decisões ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), de segunda instância, que confirmou as condenações e ampliou as penas em ambos os casos. No processo do Triplex, julgado em 24 de janeiro de 2018, a 8ª Turma manteve a condenação por unanimidade e elevou a pena para 12 anos e 1 mês. Já no caso do Sítio de Atibaia, apreciado em 27 de novembro de 2019, a turma aumentou a sanção para 17 anos e 1 mês. Posteriormente, em 23 de abril de 2019, a 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a condenação de Lula no caso do tríplex, mas reduziu a pena para 8 anos, 10 meses e 20 dias. Mas a Corte não chegou a julgar a ação da defesa do petista referente ao sítio de Atibaia a tempo, porque, em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações do ex-presidente, alegando que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o foro correto para julgar aqueles processos. Lula não foi julgado no STF. Na verdade, o que a decisão de 8 de março de 2021 do ministro Edson Fachin fez foi anular todas as condenações proferidas no âmbito da Operação Lava Jato ao reconhecer a incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba — então comandada por Sergio Moro e, posteriormente, por Gabriela Hardt. Na avaliação de Fachin, os processos não tinham relação direta com os desvios da Petrobras, o que violava o princípio do juiz natural. A anulação não tratou do mérito da condenação e também não disse, em nenhum momento, que o petista era inocente. Só pontuou que a decisão não cabia a Moro (ou Hardt) julgar Lula naqueles processos específicos. Em 23 de março de 2021, a 2ª Turma do STF declarou em julgamento que Moro agiu com parcialidade ao condenar Lula no caso do triplex, estabelecendo que esse processo deveria voltar à estaca zero. Em 23 de junho, o plenário da Corte confirmou essa decisão.
Em relação aos índices de violência, a declaração sobre o número de feminicídios foi confirmada como verdadeira. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado em julho de 2026, o Brasil registrou, em 2025, 1.571 feminicídios. O número representa alta de 4% sobre 2024 (1.504) e é o maior desde 2015, quando esse crime foi tipificado. De acordo com o Código Penal, feminicídio é o assassinato de mulheres por razões que envolvem violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Em entrevista ao g1, Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, afirmou que a alta se explica tanto pela tipificação do crime quanto por sinais consistententes de aumento real. “Se a gente estivesse lidando apenas com a melhoria do registro, a gente ia esperar uma estabilização após alguns anos. Mas o que a gente tem observado é um crescimento que segue de forma contínua ao longo desse período de monitoramento”, disse a especialista. Os registros de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra mulheres somaram 286.270 em 2025 (alta de 2,6% em relação a 2024). É o maior índice desde ao menos 2016, primeiro ano com dado nacional nas edições anteriores do anuário. Segundo o FBSP, isso equivale a pelo menos uma agressão a cada dois minutos. Outros indicadores de violência contra a mulher também subiram em 2025, segundo o levantamento: as tentativas de feminicídio cresceram 6%; os descumprimentos de medida protetiva, 17%; e os casos de perseguição (stalking), 30%. Considerados todos os assassinatos de mulheres, por qualquer motivação, houve queda. Foram 3.539 em 2025 (ou 5,5% a menos que em 2024). Os feminicídios, porém, cresceram e passaram a representar 44,4% dessas mortes, o maior percentual da série.
Resultados primários e notas de crédito
No balanço das contas públicas, a afirmação sobre o superávit foi validada. O Fato ou Fake consultou a base de dados do Resultado Primário do Governo Central, divulgada pelo Tesouro Nacional em 27 de janeiro de 2023. Ela mostra que, nos oito anos que englobam os dois primeiros mandatos de Lula, os resultados primários foram positivos entre 2003 e 2010. O superávit primário é o dinheiro que “sobra” nas contas do governo depois do pagamento de despesas, exceto juros da dívida pública. Por isso, é conhecida como a economia feita pelo governo para pagar os juros. No período pós-redemocratização, Fernando Henrique Cardoso foi o único presidente, além de Lula, a cumprir dois mandatos integralmente (1995-1998 e 1999-2022), mas os dados não mostram superávit primário em todos os anos. Em 1997, houve déficit de 0,3%.
Por outro lado, a declaração sobre o grau de investimento mereceu ressalvas metodológicas. No segundo mandato de Lula (2007-2010), o Brasil obteve duas melhorias consecutivas em sua nota de crédito soberano concedida pelas três principais agências globais de risco: Fitch, S&P Global Ratings e Moody’s. Essa avaliação serve como guia para investidores mensurarem a estabilidade econômica do país e se o retorno compensa os riscos de aporte de capital no território nacional. Contudo, foi apenas no segundo ciclo de elevações que o Brasil atingiu grau de investimento. Segundo a metodologia da S&P Global Ratings: “As classificações de grau de investimento incluem as notas BBB- ou superiores. Especificamente, a escala de grau de investimento vai de BBB- (o grau de investimento mais baixo) a AAA (a nota mais alta). Entidades e obrigações nessa categoria geralmente têm risco de crédito relativamente baixo a moderado e capacidade mais forte de cumprir compromissos financeiros”. O primeiro movimento ocorreu entre maio e agosto de 2007. A Fitch e a S&P subiram a nota brasileira de BB para BB+, seguidas pela Moody’s, que ajustou o rating de Ba2 para Ba1. Apesar do avanço, o país permaneceu no nível especulativo — categoria que, segundo a metodologia S&P, “abrange as notas de BB+ até D (inadimplência) e indica maior vulnerabilidade a calotes e riscos de crédito”. Depois, entre abril e maio de 2008, a S&P e a Fitch elevaram a nota soberana de BB+ para BBB-, alçando o Brasil ao grau de investimento. Em setembro de 2009, a Moody’s seguiu as concorrentes e reajustou a nota de Ba1 para Baa3, diminuindo o risco do país.
A menção a um déficit herdado de 2,8% foi considerada falsa. De acordo com dados disponíveis no boletim do resultado do Tesouro Nacional, na série histórica, Lula não herdou, ao iniciar o seu terceiro mandato, um déficit primário de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Na verdade, em 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), houve um superávit de 0,5% do PIB (R$ 46,4 bilhões). Essa conta mostra a diferença entre receitas e despesas, sem incluir gastos com juros, segundo números do Tesouro. No primeiro ano do atual governo Lula, em 2023, houve déficit de R$ 228,5 bilhões, ou 2,1% do PIB. A atual equipe econômica atribui o tamanho do déficit, em parte, a despesas que não teriam sido pagas no governo Bolsonaro. Uma delas são gastos com precatórios que a administração atual pagou em 2023, no valor de R$ 92,4 bilhões. São recursos referentes a sentenças judiciais definitivas. Para 2026, o governo estima um déficit primário efetivo de R$ 52 bilhões, ou 0,4% do PIB, segundo dados do mais recente Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias. O número se transforma num superávit de R$ 10,8 bilhões, ou um pouco menos de 0,1% do PIB, considerando abatimentos permitidos para o cumprimento da meta fiscal, como precatórios. A meta fiscal deste ano é de um superávit de 0,25% do PIB, com tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB para mais ou para menos.
Por fim, os dados sobre o programa Mais Médicos foram confirmados como verdadeiros. A série histórica disponibilizada no site do Ministério da Saúde indica que, após expansão do Mais Médicos, em 2015, o programa chegou a ter 18.240 profissionais. O mesmo painel mostra que, quando Lula voltou à Presidência, em 2023 havia 13.716 médicos em dezembro de 2022, imediatamente antes do início do terceiro mandato. Desse total, 8.919 estavam no Mais Médicos, outros 4.797, no Médicos pelo Brasil. Em outubro de 2026, o contingente em atividade era de 26.660 profissionais, segundo arquivos do ministério atualizados no dia 9 deste mês. Embora houvesse 28.456 vagas, nem todas estavam preenchidas: 1.141 estavam em processo de ocupação, e 655, desocupadas.






