A diminuição de 32 mil companhias empregadoras na Argentina desde a ascensão de Javier Milei à presidência, em dezembro de 2023, tem servido como principal munição para eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva rotularem a estratégia liberal do país vizinho como um fiasco completo. O argumento político frequentemente cruza a fronteira para alertar que uma vitória da oposição no Brasil, acompanhada de reformas semelhantes, resultaria em idêntica derrocada para o mercado nacional.
A realidade estatística por trás do ajuste argentino
Dados oficiais da Superintendência de Riscos do Trabalho mostram que a quantidade de empregadores passou de aproximadamente 520 mil antes da posse de Milei para cerca de 480 mil em julho de 2026, recuo de 6,3%. Contudo, o dado representa o saldo líquido do estoque, englobando encerramentos, novas aberturas e variações no registro formal de funcionários, e não o simples fim abrupto de dezenas de milhares de negócios sem reposição.
A herança protecionista e o choque de concorrência
Historicamente, a Argentina operava sob rígido controle cambial, taxas alfandegárias elevadas e forte intervenção estatal, o que blindava o parque fabril local de qualquer pressão externa. Com a eliminação de licenças prévias e a abertura comercial promovida pelo atual governo, companhias ineficientes perderam espaço, evidenciando que a proteção estatal apenas maquiava custos que eram repassados diretamente aos contribuintes e consumidores.
O duplo padrão na análise dos dados corporativos
Se a extinção de negócios fosse indício irrefutável de derrocada econômica, a mesma lógica deveria se aplicar ao território brasileiro, onde registros da Receita Federal apontam 7,8 milhões de encerramentos de CNPJs entre 2023 e 2025. Embora o saldo líquido brasileiro permaneça positivo com a onda de microempreendedores individuais, o país convive com disparadas históricas nos pedidos de recuperação judicial e juros em patamares elevados.
Caminhos opostos na gestão fiscal e monetária
Enquanto a gestão de Javier Milei prioriza cortes severos de gastos públicos para estancar o déficit e conter a inflação crônica, o governo brasileiro acumula alta na dívida bruta e sucessivos pacotes de aumento de arrecadação. Ambas as nações enfrentam transformações profundas e complexas, provando que nenhum indicador isolado, seja de fechamento ou abertura de firmas, basta para decretar o sucesso ou a ruína de um modelo econômico.






