A disputa por votos no Brasil migrou dos palanques tradicionais e da televisão para o WhatsApp, transformando eleitores comuns em agentes involuntários de propagação política.
O poder da recomendação pessoal Em conversas cotidianas de família, trabalho ou condomínio, links, memes e vídeos chegam acompanhados por uma relação de afeto, o que reduz o ceticismo natural do eleitor.
“Quando o comercial ou a propaganda oficial do candidato aparece, o eleitor liga na hora o alerta de desconfiança porque sabe que existe um interesse eleitoral ali. Mas quando essa mesma mensagem chega por um amigo, um parente ou um vizinho, o processo de avaliação muda totalmente. O eleitor não analisa apenas o texto ou o vídeo, ele leva em conta a confiança que já tem na pessoa que enviou”, explica o especialista em ciências políticas e comunicação digital João Paulo Borges.
A formação de bolhas ideológicas Diferente das redes sociais abertas como o Instagram ou o TikTok, o aplicativo de mensagens opera em ambientes fechados que favorecem a criação de microbolhas e a polarização.
“Os grupos de WhatsApp são um dos ambientes digitais em que isso acontece, e talvez de forma mais radical porque é fechado, mas é parte do que chamamos da microssegmentação das redes. As bolhas e microbolhas são uma das características principais dessa forma de comunicação”, diz a cientista política Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
O impacto da desinformação nas redes Monitoramentos realizados durante períodos eleitorais mostram que o debate político nesses espaços gera divisões e silenciamentos, além da disseminação sofisticada de conteúdos falsos ou descontextualizados.
“Nessa pesquisa, 42% dos eleitores viram grupos grandes de amigos se dividirem em subgrupos menores só para poderem falar de política com quem pensa exatamente da mesma forma. Além disso, metade dos usuários notou o surgimento de regras implícitas ou explícitas de convivência que desencorajam debates acalorados para conter atritos familiares ou profissionais. Quando alguém tenta trazer uma perspectiva diferente para esses espaços, o custo social do conflito é muito alto. A pessoa prefere silenciar ou sair do grupo para não estragar a relação pessoal com conhecidos”, explica Borges.
“É bastante difícil desmentir essas informações porque os veículos oficiais começam a ser vistos com antipatia porque alguém deles está falando algo que aquele grupo não quer ouvir. E cada vez vai ficando mais difícil, porque as pessoas vão se fechando e bloqueando essas informações. E, por isso, não por coincidência, vemos esse movimento de redução da percepção de credibilidade, porque isso tem a ver com o olhar sobre o mensageiro. Ele começa a se tornar desconfortável e passa a ser evitado”, acrescenta o especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja.
A virada política de 2018 O uso estratégico das plataformas de mensagens ganhou força nacional nas eleições de 2018, impulsionado pela alta confiança que o brasileiro deposita em círculos íntimos.
“O Brasil é um país com estruturas de confiança bastante diferenciadas. Em geral as pessoas não confiam em instituições políticas, em partidos e no Congresso. Mas os brasileiros são conhecidos em diferentes pesquisas internacionais por confiar muito nos amigos e na família. Então, quando você circula uma mensagem política através de um grupo de família ou de amigos, a mensagem tende a ter mais confiança”, acrescenta o cientista político Leonardo Avritzer.
O papel fiscalizador do TSE Diante desse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral firmou parcerias e estabeleceu critérios rígidos para coibir abusos, embora preserve a liberdade de expressão em conversas privadas entre pessoas físicas.
O grande desafio atual reside na dificuldade de combater a desinformação sem desgastar vínculos afetivos, exigindo maior senso crítico do cidadão diante do que consome e repassa diariamente no celular.
“O grande desafio é a mistura da conversa privada com o afeto. Normalmente há a barreira emocional de se corrigir alguém próximo. Apontar que uma notícia é falsa para um amigo ou familiar cria uma situação chata, porque exige que a pessoa aceite que caiu numa armadilha ou que a pessoa em quem ela confiava errou. Por isso, mandar apenas um link frio de checagem quase não funciona se não houver uma conversa humana e ágil ao mesmo tempo”, conclui Borges.






