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Eleitores com deficiência crescem 42% e batem recorde nas urnas

Recorde de eleitores com deficiência amplia desafio da acessibilidade

O contingente de cidadãos com deficiência aptos a votar alcançou a marca histórica de 1.970.165 pessoas em 2026. O número representa um salto de 42% em relação ao pleito de 2022 e consolida uma trajetória de inclusão iniciada em 2010, quando a Justiça Eleitoral começou a contabilizar esse segmento. Naquele ano, esse grupo equivalia a 0,1% do eleitorado nacional; atualmente, já responde por 1,24%, o que significa um crescimento superior a dez vezes em representatividade.

Ampliação da infraestrutura e transporte no primeiro turno

Para acompanhar essa demanda crescente, a estrutura logística das eleições precisou passar por adaptações significativas. A quantidade de seções eleitorais com acessibilidade subiu de 156.296 em 2022 (31,6% do total) para 220.577 em 2026, cobrindo agora 42,6% dos mais de 517 mil locais de votação espalhados pelo país. Embora represente um avanço substancial, a proporção ainda cobre menos da metade das seções brasileiras.

Outra inovação testada foi o programa Seu Voto Importa, voltado a garantir condução gratuita para eleitores com limitações de locomoção que não tinham condução própria. Segundo balanço oficial divulgado no dia da votação, mais de 2.000 pessoas utilizaram o serviço durante o primeiro turno.

Moradora do Paranoá, no Distrito Federal, a estudante de Jornalismo Alessandra Pereira dos Santos, que é cadeirante, destacou o impacto do projeto em sua rotina cívica:

“Na penúltima eleição eu votei pela 1ª vez, e uma pessoa teve que votar por mim. Minha mãe é a pessoa que me auxilia. Nós vamos até a cabine de votação, eu fico do lado dela e ela vai apertando os botões. Essa é uma situação que eu vejo que a Justiça Eleitoral tem tentado trabalhar”, disseAlessandra.

“Já em pontos positivos, a Justiça Eleitoral acertou muito com o programa Seu Voto Importa, porque traz inclusão social. A maioria das pessoas com deficiência mora longe do seu local de votação, e o deslocamento já é difícil em dias normais. Com a sociedade toda se deslocando ao mesmo tempo para ir às urnas, fica mais complicado. Então, esse acesso fácil traz uma tranquilidade, é menos estressante, porque o programa busca justamente romper as barreiras físicas”, declarou.

“Eu, como uma pessoa com deficiência, quero ter também o meu direito de votar por conta própria. Nós precisamos ter participação ativa em todos os lugares”, afirmou.

Obstáculos além das urnas e treinamento de mesários

Apesar das melhorias, especialistas alertam que a acessibilidade vai muito além da rampa de entrada ou do teclado adaptado. Advogado e ex-ministro-substituto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Joelson Dias enfatiza que as restrições envolvem a mobilidade urbana, a comunicação institucional e até o comportamento dos trabalhadores eleitorais.

“O que nós queremos mesmo são todas as sessões com acessibilidade. Depois, ter certeza de que as barreiras serão removidas de todo o processo eleitoral, antes, durante e depois da campanha. Que também sejam removidas essas barreiras não somente na urna eletrônica, no local de votação, mas no entorno, desde que a pessoa saia da sua casa para votar até a sua efetiva manifestação”, disse.

Dias, que presidiu a Comissão Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB, apontou ainda a necessidade de qualificar o atendimento humano nas seções:

“Após o 1º turno, o que mais eu ouvi de reclamação de algumas pessoas com deficiência foi [sobre] a capacitação e o treinamento dos mesários. Será necessário ver de que maneira isso pode melhorar”, declarou.

O especialista reforça que os próprios votantes devem protocolar queixas nos cartórios ou comunicar falhas no momento da votação para subsidiar melhorias contínuas. “Nada para as pessoas com deficiência sem as próprias pessoas com deficiência”, disse ele.

Tecnologia a favor da autonomia

Na ponta da tecnologia, as atualizações de software trouxeram mais independência. A professora de música Carolina Dias Lima Souza, de 27 anos, que tem deficiência visual total e votou em São Sebastião (DF), relatou os benefícios do novo sintetizador de voz da urna eletrônica:

“Tenho deficiência visual total e utilizei a urna eletrônica com leitor de tela para votar. Para mim, a experiência foi muito boa, porque os comandos estão mais acessíveis. Eu consigo controlar a velocidade e também o volume da voz, e foi o melhor para mim”, declarou Carolina.

“Na eleição passada, quando eu apertava os botões, [a urna] só falava o número e mostrava a foto. Este ano, também falava o [nome do] candidato, e é muito importante ter essa informação para a gente ter certeza da pessoa em quem está votando. Para mim, a urna é uma experiência que está ficando cada vez melhor”, disse.

Desafio da representatividade e candidaturas

Se o eleitorado com deficiência cresceu de forma expressiva, a presença desse grupo disputando mandatos permaneceu quase estagnada. Entre as eleições de 2022 e 2026, a quantidade de candidaturas com esse perfil passou timidamente de 476 para 499.

O cenário foi debatido em audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado no início de setembro. Na ocasião, o senador Flávio Arns (PSB-PR) pontuou que o processo democrático exige um olhar integral sobre o trajeto do cidadão:

“A acessibilidade é questão essencial na democracia. Estamos falando aqui de toda uma jornada de cidadania, que já começa quando um eleitor procura uma informação ou entra em contato com a Justiça Eleitoral e prossegue até as condições para que ele tenha acesso à sua zona de votação”, disse o senador.

A presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), cobrou maior compromisso das legendas partidárias no financiamento e na infraestrutura de campanha para postulantes com deficiência:

“A gente vai ter que educar os partidos. Se eu quero [pessoas com deficiência] no palanque, elas vão ter que subir e ser respeitadas em sua condição. Essa pessoa tem que ter uma cota do fundo [eleitoral] diferenciada, porque, quando eu estou com um candidato que precisa de tradutor, a despesa dele é maior. Quando eu estou com um candidato que está na cadeira de roda e precisa do trabalho apoiado, a despesa dele é maior”, declarou.

O diagnóstico deixado pelo primeiro turno de 2026 sinaliza que, embora as ferramentas de inclusão tenham evoluído consideravelmente, o país ainda precisa consolidar políticas permanentes de fiscalização predial, suporte no transporte e incentivo partidário para que a igualdade nas urnas seja plena tanto no direito de escolher quanto no de ser escolhido.

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