As recentes revelações sobre acordos financeiros envolvendo figuras conhecidas da imprensa nacional trouxeram novos elementos para o debate sobre o engajamento na comunicação política.
Origens do termo e a crítica midiática Em 2008, no glossário de O país dos petralhas, Reinaldo Azevedo descrevia uma espécie que, segundo ele, abundava nas redações brasileiras: “TOCADORES DE TUBA – É o colunismo engajado na defesa incondicional do governo petista. O tocador de tuba é o propagandista menos sutil. Suas versões mais amenas podem tocar flauta ou saxofone.” No segundo volume, de 2012, o catálogo ganhava o JEG, o “Jornalismo da Esgotosfera Governista”, feito de veículos e jornalistas que “só existem porque são financiados com o nosso dinheiro”.
Ninguém escreveu com mais gosto contra os “subjornalistas que vivem de dinheiro público”, contra os “prestadores de serviço que se disfarçam de jornalistas”, contra Franklin Martins, o “czar da publicidade oficial”. O inventor da palavra “petralha” fez carreira apontando o dedo para a pena alugada. Era a sua especialidade, quase o seu sacerdócio.
Mudanças de postura e o impacto das mensagens Depois veio a conversão. Quase tão súbita quanto a de Saulo no caminho para Damasco. O caçador de petralhas tornou-se advogado de Alexandre de Moraes, intérprete benevolente de Lula e verdugo da direita, usando contra os antigos leitores o mesmo arsenal de adjetivos que antes reservava aos adversários deles. Durante anos, a guinada foi tratada como enigma psicológico, assunto para biógrafos, ou quem sabe para Ovídio e Kafka.
As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e publicadas pelo jornalista Paulo Figueiredo oferecem uma hipótese menos poética. Segundo o material, o advogado Walfrido Warde, defensor do Banco Master, doador do PT e sócio de Reinaldo no programa Reconversa, servia de ponte entre o banqueiro e o jornalista. Num print de janeiro de 2025, Fabiano Zettel, encarregado dos pagamentos de Vorcaro, menciona “aquele contrato do Reinaldo Azevedo”: 12 parcelas de R$ 100 mil a partir de março de 2024, sete delas já quitadas. Em março de 2025, Vorcaro pede que um jornalista de renome “compre a briga” pela venda do Master ao BRB. Warde responde: “Deixa comigo.”
Reflexões sobre coerência e alinhamentos O contrato talvez não explique a origem da conversão, que é anterior, ali pelo auge da Lava Jato, entre 2016 e 2017. Mas, possivelmente, explica a sua forma mais radical contemporânea. Nenhuma fé se sustenta muito tempo sem obras, e algumas obras, como se vê, vêm em parcelas.
Há uma ironia quase litúrgica no episódio. O homem que acusava Luiz Weis de “lustrar os sapatos do poder” e via em Veríssimo um saxofonista do Planalto reaparece, nas conversas de um banqueiro em apuros, como item de planilha. A “Al Qaeda eletrônica” que ele denunciava não precisou derrotá-lo. Bastou contratá-lo.
Reinaldo gostava de citar o Sermão do bom ladrão, de Vieira, sobre um certo Seronato, que “está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer”. Usava o trecho contra os “propineiros de quinta categoria, que alugam a opinião”. Nunca uma epígrafe esperou tanto tempo pelo seu verdadeiro destinatário.
O tocador de tuba não mudou de instrumento. Mudou apenas de maestro.






