A Paraíba enfrenta a sombra de um dos eventos climáticos mais severos da história. Entre 1877 e 1879, a região foi assolada pela “Grande Seca”, um fenômeno de proporções catastróficas que, aliado à falta de infraestrutura, dizimou quase 10 mil vidas apenas no estado. Com a previsão de um novo Super El Niño para 2026, pesquisadores e autoridades buscam lições no passado para evitar que o colapso sanitário e social se repita.
O impacto da Grande Seca no século XIX
Registros históricos apontam que o evento do século XIX não foi apenas uma crise hídrica, mas um colapso estrutural. A historiadora Ana Paula Moura da Costa, mestranda pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), destaca que a província carecia de preparo para lidar com o fenômeno. “Ela não tinha estrutura. Então era uma questão que já vinha sendo discutida há anos. A gente pode ler isso no relatório do presidente de província. E quando chega a seca, ainda assim, a capital da Paraíba ainda está muito frágil. Então não vai ser só uma questão de falta d’água, mas sim uma questão de desestruturação total na vida tanto das pessoas que vão vindo do interior para a capital, quanto das pessoas da capital que vão receber nessas pessoas”, explicou.
Crises econômicas e migração em massa
A situação foi agravada por um cenário de instabilidade econômica prévia. A queda nas exportações de algodão, após o fim da Guerra de Secessão nos EUA, e a substituição do açúcar brasileiro pelo de beterraba na Europa desestabilizaram a economia local. “A gente vai ter entre 1861 e 1865 a Guerra de Secessão Americana e ela vai ser a grande responsável por um período de ascensão e também por um período de colapso da cultura do algodão na Paraíba e também no Ceará, Pernambuco e Maranhão, porque como os Estados Unidos nesse período é um dos maiores fornecedores mundiais de algodão e eles vão entrar em guerra. O Brasil vai ser procurado para ser esse novo fornecedor e por causa disso vai beneficiar diretamente várias províncias do nordeste brasileiro mas quando a guerra acaba esse benefício também se acaba, então vai ter uma queda da economia do Nordeste”, disse a historiadora.
O colapso sanitário e a mortalidade
A fome e a sede forçaram uma migração interna desordenada para a capital, João Pessoa. Sem saneamento e com a chegada de milhares de retirantes, epidemias de varíola, malária e disenteria dizimaram a população. “Não tínhamos, por exemplo, a vacina da varíola. Quando os migrantes chegam na capital, eles não têm esse anticorpo para se proteger e, enfim, a província vai ser varrida por epidemias. A gente vai ter notícias sobre vários tipos de febre, malária, bexiga, desinteria e, claro, a mais cruel de todas que é a varíola e aí o desespero vai ser muito grande”, detalhou Ana Paula.
Projeções para o fenômeno de 2026
O meteorologista Ranyere Silva Nóbrega, da UFCG, alerta que o evento atual pode ser um dos mais intensos já registrados. “O paralelo está muito ligado à intensidade do evento, pois ambos são caracterizados por esse aquecimento do oceano. O aquecimento considerado bem acima da média. Então, o evento vai ser classificado, é possível, ainda está classificado como evento forte, mas os modelos de comportamento das águas do Oceano Pacífico, tanto a superficial quanto a subsuperficial, também estão indicando que deverá se formar um evento muito forte. Há indicativos de modelos numéricos que possa ser acima de 2,5 graus, tornando talvez o evento mais intenso da história”, afirmou.
Prevenção e políticas públicas atuais
Diante de um levantamento do Climate Impact Lab que projeta centenas de mortes relacionadas ao clima, a Paraíba instituiu um grupo de trabalho para coordenar respostas. O Ministério Público da Paraíba (MPPB) também atua para que a gestão de crises deixe de ser baseada apenas em decretos emergenciais. “O Ministério Público, através dessa coordenação do CAO Meio Ambiente, está trabalhando de forma articulada e com vistas a medidas preventivas. E essas medidas passam pela implementação de uma política pública permanente de prevenção aos eventos climáticos. Isso envolve o fortalecimento da defesa civil”, afirmou a promotora Cláudia Cabral. O objetivo é integrar as defesas civis municipais e estaduais, criando uma rede de monitoramento permanente para mitigar os efeitos deste desafio climático.






