A inalação involuntária da fumaça de cigarro nos primeiros momentos da vida é capaz de desregular a mineralização dentária, gerando alterações estruturais mesmo quando o dente aparenta estar perfeitamente saudável a olho nu. Os dados constam em uma investigação desenvolvida na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Forp-USP) e veiculada pelo periódico científico Calcified Tissue International.
Mudanças invisíveis na estrutura e na química mineral
Durante a análise laboratorial conduzida no doutorado da pesquisadora Juliana de Lima Gonçalves, filhotes de roedores foram submetidos à fumaça de tabaco duas vezes ao dia, por cinco minutos, entre o 2º e o 28º dia após o nascimento. Paralelamente, um grupo-controle permaneceu resguardado em ambiente sem poluição tabágica.
Embora visualmente a arcada dentária dos animais não apresentasse anomalias, as avaliações microscópicas e químicas revelaram um cenário preocupante: houve alargamento dos espaços existentes entre os prismas do esmalte — estruturas que organizam a malha mineral do dente —, além de uma redução significativa nos níveis de fósforo.
O fósforo é parte fundamental da hidroxiapatita, composto primordial para assegurar a dureza e a resistência mecânica da dentição contra fraturas e atritos. Ao mesmo tempo, os testes detectaram a elevação anormal nas taxas de carbono.
“O esmalte é a estrutura mais dura do corpo humano justamente porque ele é altamente mineralizado. O aumento de carbono sugere maior presença de material orgânico no esmalte, o que não é considerado normal”, explica Paula-Silva ao ressaltar que, associada à redução de fósforo observada no estudo, essa alteração pode modificar características importantes do esmalte, como resistência e dureza.
O esmalte dentário como um biomarcador definitivo
O trabalho integra uma linha investigativa coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva, apoiada pela Fapesp. Os cientistas se apoiam nos princípios da DOHaD (sigla em inglês para Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença), vertente que relaciona agravos sofridos no início da vida com o surgimento de patologias na idade adulta.
“O esmalte é uma estrutura muito interessante porque pode funcionar como um biomarcador. Ele se forma naquele momento da vida e depois não sofre remodelação, diferente do osso que segue remodelando durante a vida toda”, afirma Paula-Silva. “Então, detectar alterações no esmalte pode trazer informações importantes sobre exposições muito precoces, que às vezes a pessoa nem consegue recordar”, diz.
A formação do tecido dentário se inicia ainda na fase intrauterina, mas a fase de mineralização e endurecimento dos dentes permanentes estende-se ao longo da infância, constituindo um período de alta vulnerabilidade biológica.
Resistência ao desgaste e próximos passos da pesquisa
Os testes de dureza não acusaram perda inicial imediata, fato atribuído à pouca idade dos animais ao término das medições, apenas uma semana após o desmame.
“Eles praticamente não usaram esses dentes. O que a gente precisa entender agora é como esse esmalte vai se comportar com o uso ao longo do tempo. Será que essa alteração na composição química vai impactar a resistência do dente no futuro? Essa ainda é uma pergunta em aberto”, afirma.
Para aprofundar as descobertas, a equipe iniciou novos testes aplicando exposições diárias mais longas, de cerca de uma hora, divididas em dois períodos. “Talvez, o que estamos vendo agora seja uma manifestação mais leve desse problema. Com uma exposição maior, poderemos entender melhor até onde essas alterações podem chegar”, avalia o pesquisador.
Possível elo com problemas dentários comuns em crianças
A constatação de que a matriz dentária manteve sua espessura, mas perdeu qualidade mineral, reforça a tese de que a fumaça prejudica especialmente a etapa de maturação dos dentes. “Nós não observamos alterações na espessura do esmalte, o que indica que sua formação ocorreu normalmente. O que encontramos foi uma mudança na composição química, sugerindo um efeito sobre a etapa de mineralização e maturação”, explica.
A hipótese clínica levantada pelos pesquisadores é que essa interferência possa ter ligação com a hipomineralização molar-incisivo, distúrbio que enfraquece o esmalte e atinge cerca de 20% das crianças em todo o mundo, favorecendo a proliferação de lesões de cárie e quebras.
“Hoje ainda não sabemos exatamente por que esses defeitos acontecem. Quando observamos que a exposição precoce à fumaça altera a composição e a estrutura do esmalte, isso sugere que o tabagismo passivo pode ser uma das causas envolvidas nesse processo.”
Apesar de os achados em cobaias exigirem cautela antes de serem extrapolados para humanos, eles ampliam o alerta sobre a gravidade do fumo passivo nos primeiros anos de vida. “O fumo já é reconhecido como um problema importante para doenças respiratórias e para o desenvolvimento infantil. O que esse trabalho mostra é que talvez os dentes também possam guardar marcas dessas exposições precoces.”






