O encerramento da jornada de trabalho no modelo 6×1 tem potencial para gerar forte pressão sobre os valores praticados no comércio a partir de 2027. Além de encarecer produtos, a mudança na legislação trabalhista pode espremer a rentabilidade das companhias e frear a abertura de novas vagas de emprego no setor. Diante de um cenário macroeconômico em que o consumo das famílias segue desaquecido, analistas apontam que os comerciantes encontrarão margem limitada para transferir o acréscimo de despesas diretamente para o consumidor final.
Desempenho atual do setor comercial Indicadores divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que as vendas do comércio varejista registraram alta de apenas 0,1% no mês de agosto frente aos resultados de julho. O dado reforça o cenário de cautela, sendo puxado para baixo principalmente pelo segmento de móveis e eletrodomésticos, que sofreu um recuou de 4,2% e evidencia a vulnerabilidade de mercados que dependem fortemente de linhas de crédito.
Projeções de impacto na inflação e nos preços As estimativas elaboradas por analistas do mercado financeiro acerca da transferência de custos para os compradores divergem. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, calcula que entre 35% e 45% do custo adicional poderá chegar ao consumidor em 2027. Nesse cenário, a pressão sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) poderia alcançar 0,12 ponto percentual.
Outros especialistas traçam cenários distintos para o comportamento inflacionário. Letícia Moschioni, sócia da Finscale, projeta repasse de 20% a 30%, com impacto de aproximadamente 0,05 ponto percentual no IPCA. Já Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, estima que entre 25% e 35% dos custos adicionais sejam transferidos aos preços, com pressão de 0,08 ponto percentual sobre a inflação.
Desafios para pequenas empresas e margens de lucro De acordo com Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o comércio terá dificuldades para reajustar preços sem perder clientes. A tendência, segundo ele, é que as empresas absorvam parte significativa das despesas, comprimindo as margens. Pequenos varejistas estariam mais expostos, com risco de redução de contratações e investimentos.
André Matos, CEO da MA7 Capital, destaca a divergência entre as projeções. Ele cita estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que apontam alta de cerca de 1% nos preços do comércio em cenário de repasse integral, e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que calcula aumento médio de 6,2%.
Adaptação tecnológica e produtividade A reestruturação da carga horária obrigará as companhias a repensarem a escala de seus colaboradores, abrindo espaço para aportes mais intensos em inovação e automação. O sucesso na gestão dessa transição definirá quais negócios conseguirão blindar suas finanças e manter a competitividade em meio às novas regras trabalhistas.






