A aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1 em primeiro turno no Senado foi recebida com forte emoção por trabalhadoras de todo o país. O texto passou com 75 votos a favor e apenas 1 contrário, marcando uma virada histórica na legislação trabalhista brasileira e na vida de quem enfrenta jornadas exaustivas para sustentar a família.
Impacto na rotina das trabalhadoras
Para a operadora de caixa Luciana de Almeida, de 36 anos, moradora de Realengo, no Rio de Janeiro, a mudança representa a chance inédita de ter duas folgas semanais. Trabalhando no comércio desde os 18 anos, ela relata o desgaste físico e mental acumulado ao longo de décadas na escala 6×1.
“Estou com o corpo e, principalmente, com a mente muito cansados”, diz Luciana, que trabalha na escala 6×1 no comércio desde os 18 anos. “No dia depois da folga, eu continuo trabalhando cansada.”
Com a nova legislação, a rotina de longas horas no transporte público e exaustão doméstica poderá dar lugar a momentos de convivência com os filhos. Foi nas férias recentes que a carioca teve uma reflexão profunda sobre o tempo perdido: “Estou vendo a vida dos meus filhos passar, não consigo ir em festa de dia das mães, junina, nada”, diz. “Preciso ter tempo com minhas filhas, ter algum lazer ou mesmo ficar em casa descansando”, relata.
“Vai mudar muita coisa”, diz. “Vou conseguir descansar, resolver coisas da minha vida, até fazer um extra se conseguir.”
Fases de transição e regras no mercado
De acordo com dados do Ministério do Trabalho referentes ao final de 2025, a escala 6×1 era a realidade de 14,8 milhões de pessoas, somando pouco mais de um terço da mão de obra formal no Brasil. A implementação da nova jornada ocorrerá em duas etapas distintas.
A primeira fase começará 60 dias após a promulgação do texto, decretando o fim do regime 6×1 e reduzindo o limite semanal de 44 para 42 horas. Na segunda etapa, após 14 meses, a carga horária cairá para 40 horas semanais. Antes de entrar em vigor na Constituição, a proposta ainda passará por sessão solene das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado.
Memórias de ausência e exclusão materna
Em São Paulo, a gerente comercial Fabiane da Conceição, de 50 anos, também celebrou a mudança após passar 20 anos em jornadas de apenas uma folga semanal. Vítima de violência doméstica e sem rede de apoio, ela relembra os sacrifícios financeiros e emocionais para criar os filhos sozinha.
“Sinto hoje que perdi a maior parte das coisas que enxergo importante na criação dos filhos. Não os vi aprender a andar, não os levei ao primeiro dia da escola”, conta Fabiane, emocionada.
“Eu não posso me arrepender porque era o que dava nosso sustento, mas não deixo de sentir a dor. Me sinto aliviada quando penso em pessoas mais jovens e outras mulheres que vão viver uma situação que não às leve à exaustão física e mental e à exclusão materna.”
Fabiane recorda que, há 30 anos, gastava boa parte do salário com cuidadores para os filhos enquanto enfrentava duas horas de deslocamento entre a Zona Leste e a Zona Oeste da capital paulista. “Sempre tive total noção da qualidade de vida que eu não tinha. Mas o fator financeiro me exigia, era isso ou não tinha dinheiro em casa. Deixou de ser escolha para mim muito cedo”, completa.
“Pela primeira vez, mães como eu poderiam ter dia de lazer, organizar a vida, ficar em casa e poder descansar.”
Cenário político e próximos passos
A tramitação da PEC envolveu articulações políticas e debates sobre o futuro das leis trabalhistas. Parlamentares da oposição e da base governista discutiram os impactos da medida, enquanto lideranças partidárias já projetam novas discussões sobre jornada flexível para o período pós-eleitoral.
“A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6×1, então eu vou votar a favor do fim da 6×1”, disse Flávio Bolsonaro, senador que apoiou a aprovação do texto após posições anteriores contrárias.
Enquanto o setor de comércio e serviços se prepara para as adaptações necessárias, trabalhadoras como Luciana e Fabiane olham para o futuro com a expectativa de resgatar o tempo perdido com suas famílias e garantir mais dignidade no ambiente profissional.






