O cotidiano de quem leciona nas escolas brasileiras tem sido marcado por um cenário de exaustão, desvalorização e solidão profissional. Embora exerçam um papel vital na formação de crianças e jovens, docentes de diferentes regiões do país enfrentam rotinas desgastantes que misturam excesso de alunos por sala, escassez de infraestrutura básica, agressões físicas ou verbais e remunerações distantes da exigência de sua formação.
Salas superlotadas e sobrecarga emocional
A quantidade excessiva de estudantes por turma é apontada como um dos maiores gargalos pedagógicos. Em Santo André, no ABC paulista, a professora Janaína Jascone, de 43 anos, relata a dificuldade de alternar entre classes cheias e agitadas ao longo do dia de trabalho.
“Na primeira aula, entro em um universo. Dali a 50 minutos, vou entrar em outro. Depois, em outro. A primeira aula é calma, a segunda já é agitada, a terceira, depois da educação física, é com a adrenalina lá em cima… Vão ser seis em uma manhã só. Quem cuida da nossa saúde mental?”, diz.
Janaína explica que o tempo destinado ao aprendizado acaba consumido pela gestão do comportamento em sala: “É muita gente, e cada turma tem seu ritmo. No ano passado, eu tinha uma com 49 adolescentes. Ensinar é a parte mais gostosa, mas, em um dia feliz, em uma aula de 50 minutos, eu consigo dar 15 minutos de conteúdo. O resto é mediando conflito”, diz.
A ampliação de papéis também sufoca a categoria. Em Roraima, o professor de história da rede estadual Hudson Araújo descreve o peso das obrigações burocráticas associadas à carência social dos estudantes. “A gente tem de ser professor, pai, líder religioso, psicólogo, assistente social… em uma sala com 40 alunos. São 10, 20 salas na mesma lógica. E ainda é preciso produzir cada vez mais, preencher todas as plataformas [digitais]… Existem metas a serem batidas”, afirma.
Indisciplina, perda de autoridade e violência
Dados do estudo “O Estado do Professor Brasileiro”, conduzido pelo Instituto Casagrande, revelam que a perda de autoridade atinge 93,4% dos professores do ensino fundamental I. Já o ensino fundamental II concentra os piores índices de desgaste, desgaste com as famílias e intenção de largar o magistério. No ensino médio, sobressaem a desatenção discente e a necessidade de levar trabalho para casa.
Em Curitiba, o professor Leviston Silveira, que atua nos anos finais do fundamental e no ensino médio públicos, aponta a falta de recursos efetivos para lidar com problemas comportamentais. “Qual é o mecanismo que você tem para combater a indisciplina em sala de aula?”, questiona. “Muitas vezes, você tira o aluno da sala, para ele ir até a coordenação. Depois, ele vai retornar e continuar fazendo exatamente a mesma coisa de antes.”
A relação desgastada entre escola e família agrava esse quadro. A docente Maria Luzia, que lecionava na educação infantil pública do Distrito Federal, viveu episódios drásticos de agressão. “A escola virou um depósito. Os pais acham que o professor é obrigado a dar conta de tudo e de todos. Tudo o que não der certo é culpa nossa”, diz.
“Um menino simplesmente subiu na cadeira e me deu um tapa no rosto do nada. A gente sempre reporta esse tipo de comportamento para os pais, né? Manda na agenda, falando para conversarem com a criança. Mas a mãe, nesse caso, foi até a escola e disse que levei o tapa porque mereci”, conta Maria, que decidiu se afastar da profissão após a maternidade.
Além da agressividade, o policiamento sobre os conteúdos gera apreensão cotidiana. Hudson destaca a censura velada no trato de temas curriculares: “Eu tenho medo de falar de nazismo, direitos das mulheres, religião… Porque sei que tudo vai se voltar contra mim. O professor, na nossa atualidade, virou um bode expiatório para tudo o que há de ruim na sociedade.”
Falta de materiais básicos e gastos do próprio bolso
O Anuário Brasileiro da Educação Básica, divulgado pela ONG Todos Pela Educação, aponta que 80% das escolas públicas de ensino fundamental II não possuem laboratório de ciências. Silveira, que ensina essa disciplina, presencia o impacto do desmonte. “A vida dos professores fica muito difícil. Os alunos ficam ainda mais desinteressados pelo conteúdo. Isso aumenta o nosso adoecimento”, diz. “Imagine um jovem que quisesse virar professor também. Quando ele vê esse tipo de situação, desiste.”
Falhas de infraestrutura tecnológica também inviabilizam atividades. Janaína recorda que perdeu uma aula inteira ao tentar exibir produções dos estudantes: “Tentei rotear internet do meu celular para ver na televisão. Outro aluno tentou, outra aluna tentou… Fui procurar um cabo HDMI, e estavam todos quebrados. Perdi uma aula de 50 minutos porque não há manutenção técnica”, diz a professora.
Diante das carências, muitos educadores financiam os próprios instrumentos de ensino. Maria Luzia precisou arcar com impressões para adaptar tarefas de um aluno com deficiência: “Eu comprei uma impressora e imprimi tudo em casa. Todos os livros que passo acabo comprando. Compro porque não tem. É isto: se um educador quiser realmente ver os alunos se desenvolverem, vai ter de fazer acrobacias assim para conseguir, pagando do seu bolso”, relata.
A carência de equipe multiprofissional para apoiar a educação inclusiva sobrecarrega ainda mais a regência de classe, pontua Leviston: “Você tem um aluno com transtorno do espectro autista, às vezes nível 3 [de suporte], que é mais grave e que precisa de atenção maior. Tem também um com TDAH, outro que nem é laudado, mas que está com depressão. E no meio disso, outros 30 alunos, todos na mesma turma. Como que o professor lida com isso sem um auxiliar na sala?”, questiona.
Descompasso salarial e jornada invisível
Conforme o relatório Education at a Glance 2026, da OCDE, somente 22,3% dos docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental dizem estar satisfeitos com sua renda, figurando entre os patamares mais baixos internacionalmente.
A disparidade em relação a carreiras equivalentes desmotiva quem investe em pós-graduação. “A questão salarial vai ser sempre um peso enorme. Eu trabalho tanto, para receber menos do que outros profissionais que estudaram o mesmo tanto que eu. Estou no doutorado agora. Mas sei que, quando terminar, como professor-doutor, vou estar ganhando como um graduado de outra profissão. Ou até menos”, afirma Hudson.
O docente frisa ainda que o trabalho extrapola as quatro paredes da escola: “Para eu trabalhar, eu tenho que trabalhar antes de trabalhar. E depois que eu trabalhei, eu tenho que trabalhar de novo em cima do que eu trabalhei para trabalhar a próxima parte do trabalho. Essa é a vida do professor”, diz. “A gente sabia que seria assim, mas, caramba, dentro do mercado formal de trabalho, o professor ganha menos. Não dá para entender.”
Reivindicações urgentes da categoria
Profissionais da área elencam medidas necessárias para frear a evasão da carreira e restabelecer a qualidade de ensino:
- Valorização e equiparação salarial: cumprimento real do piso nacional sem maquiagem por gratificações transitórias, com equiparação a outras formações de nível superior e pós-graduação.
- Redução de estudantes por sala: controle do número de matriculados por turma para garantir atendimento individualizado e ambiente saudável.
- Autonomia e desburocratização: resgate da liberdade didática com redução do controle engessado imposto por plataformas digitais.
- Fim da aprovação automática: devolução do peso pedagógico aos conselhos de classe para diagnosticar e reter defasagens sem mascarar estatísticas.
- Parceria com as famílias: maior comprometimento dos responsáveis pela conduta e rotina educacional dos alunos.
- Atenção à saúde mental: criação de redes públicas de suporte psicológico para os docentes.
- Estabilidade e direitos a temporários: combate à precarização dos vínculos contratuais e proteção durante licenças de saúde.
- Estrutura escolar: climatização, mobiliário digno, conectividade e laboratórios antes de ampliações de carga horária.
Para Luciléia Ramos, professora de artes em Praia Grande (SP), “A educação de qualidade não depende apenas do esforço individual do professor, ela também exige condições reais para que esse trabalho aconteça”.
No quesito emocional, as políticas públicas ainda deixam os educadores desassistidos. “Quando olhamos para os 30% de escolas que oferecem algum tipo de suporte de saúde mental, como psicólogo ou psicopedagogo, nunca o benefício contempla o professor. Ele não é visto pelas políticas públicas de saúde física






