O papa Leão XIV desembarcou no Uruguai nesta sexta-feira (6), dando início a um roteiro de 12 dias por três nações sul-americanas. A jornada ocorre menos de um mês depois de o pontífice passar por uma cirurgia no pulmão, procedimento que gerou incertezas sobre a realização do percurso.
Recepção oficial e clima de festa em Montevidéu
O presidente uruguaio, Yamandú Orsi, recepcionou o líder católico no Aeroporto Internacional de Carrasco, situado nos arredores de Montevidéu, após um voo de aproximadamente 14 horas com saída de Roma. Para celebrar a aterrissagem, templos religiosos de todo o território acionaram seus sinos. Sob forte vento e tempo nublado, admiradores lotaram a orla da capital para ver o chefe da Igreja Católica desfilar em um papamóvel aberto.
Esta é a primeira visita oficial de um pontífice ao país em quase 40 anos, desde a passagem de João Paulo II em 1988. Com duração prevista de três dias, a passagem pelo Uruguai inclui passagens por uma região vulnerável à violência de gangues, além de missas nas cidades de Paysandú e Florida.
Contexto histórico da secularização uruguaia
Reconhecido como o território mais secularizado da América Latina, o Uruguai abriga cerca de 3,5 milhões de habitantes. Embora parte da população se declare católica, a frequência regular aos cultos é baixa. Esse cenário remonta ao período colonial, marcado pela ausência de grandes reservas de minerais preciosos e pela colonização tardia, que reduziu a presença de padres e bispos em comparação a outras regiões do império espanhol.
O historiador uruguaio Gerardo Caetano afirmou que a colonização tardia contribuiu para o enfraquecimento do catolicismo no país.
No século 19, a separação entre Estado e religião ganhou força com influências liberais europeias. Com o passar do tempo, o país implementou marcos progressistas, como a legalização da maconha recreativa, a descriminalização do aborto, a permissão do casamento homoafetivo e, mais recentemente, a aprovação de regras para a morte assistida, contrariando a posição da Igreja Católica.
Desafios e próximas etapas do giro sul-americano
Apesar da forte laicidade local, autoridades eclesiásticas relatam grande interesse popular, com ingressos esgotados rapidamente para eventos como a vigília no Estádio Centenário. O ex-chefe da Comissão Pontifícia para a América Latina do Vaticano, o uruguaio Guzmán Carriquiry, afirmou que a presença do pontífice pode ajudar a recuperar a importância da tradição católica na identidade nacional.
O especialista em estudos católicos Andrew Chesnut, da Universidade Virginia Commonwealth, afirmou que a recepção calorosa ao papa não significa necessariamente um aumento da frequência às igrejas.
Após concluir os compromissos em solo uruguaio, o papa seguirá para a Argentina — terra natal do falecido papa Francisco — e, em seguida, para o Peru, onde possui cidadania e atuou por duas décadas como missionário e bispo.






