As infecções por mpox registraram alta expressiva na cidade do Rio de Janeiro recentemente. Apenas nos meses de setembro e outubro, a capital fluminense contabilizou 74 casos diagnosticados, o que representa um salto sete vezes maior na comparação com o mesmo período do ano passado.
Compra de vacinas e cenário no país
Diante desse cenário de avanço localizado, o Ministério da Saúde autorizou a aquisição de até 20 mil doses adicionais da vacina contra a enfermidade para abastecer a rede pública. O governo também enviou um lote extra de 2 mil doses ao estado fluminense, totalizando 3,5 mil unidades destinadas à região ao longo de 2026.
Apesar dessa oscilação na capital fluminense, o panorama brasileiro permanece distante do registrado durante o surto de 2022. Dados oficiais indicam 665 confirmações da doença no país em 2026, queda de 94% frente ao patamar de quatro anos atrás, quando os registros superaram a marca de 10 mil casos.
A mpox pode ser fatal?
Especialistas esclarecem que a patologia raramente leva à óbito. Para a imensa maioria dos pacientes, o quadro clínico se manifesta de forma leve ou moderada, regredindo sem deixar sequelas graves.
O perigo se eleva, contudo, em indivíduos com imunossupressão, a exemplo de pessoas com HIV sem acompanhamento adequado, pacientes oncológicos e transplantados.
“Pode matar, sim, mas isso é raro. Hoje, para a população em geral, o risco é considerado baixo”, afirma Álvaro Costa, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), consultor técnico do Ministério da Saúde para Infecções Sexualmente Transmissíveis e coordenador do serviço de HIV do Hospital das Clínicas da USP.
Outro especialista na área, Marcos Vinicius Borges, aponta que a taxa de letalidade nos episódios globais mais recentes costuma ficar abaixo de 1%. Contudo, esse índice pode subir em regiões desprovidas de boa infraestrutura de saúde.
Como ocorre a transmissão?
Diferente de enfermidades como o sarampo, o vírus não se propaga pelo ar com facilidade. A via principal de contágio se dá pelo toque direto em secreções, mucosas ou feridas na pele de quem está infectado.
O espalhamento também pode acontecer mediante exposição prolongada e próxima a secreções respiratórias, como em conversas face a face por tempo estendido.
“Não é uma doença altamente transmissível pelo ar”, explica Costa.
Materiais de uso pessoal compartilhados, a nem ser roupas, lençóis e toalhas de doentes, figuram igualmente como fontes potenciais de infecção.
Beijo e contato íntimo transmitem o vírus?
O beijo representa uma via de transmissão, em especial quando há feridas ativas na boca, nos lábios ou na face. A saliva também pode abrigar o patógeno.
“O beijo envolve proximidade intensa e contato de mucosas. Se houver lesões ativas, o risco existe”, explica Borges.
Por essa razão, profissionais recomendam abster-se de beijos e interações físicas achegadas na vigência de feridas suspeitas até um diagnóstico médico.
Embora o contato físico estreito durante relações sexuais propague o vírus com facilidade devido ao atrito cutâneo, a enfermidade não se enquadra nas Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) tradicionais, pois qualquer pessoa pode ser infectada por meio de proximidade física geral.
“O contato íntimo durante a relação sexual facilita muito a transmissão. Mas é importante lembrar que ela também pode ser transmitida por outros tipos de contato físico próximo”, afirma Costa. Borges reforça que o patógeno não se restringe a nenhum grupo populacional específico.
Sintomatologia inicial e diferenciação da catapora
Os primeiros sinais costumam imitar outras viroses. A lista abrange febre, exaustão, cefaleia, dores pelo corpo, surgimento de ínguas e lesões cutâneas.
As marcas na pele evoluem desde manchas e bolhas até feridas com pus e posterior cicatrização, podendo surgir na região genital, na boca e em outras áreas.
“Ao notar algo diferente na pele, especialmente associado à febre, vale procurar avaliação médica”, orienta Borges.
Diferenciar a mpox da catapora apenas pelo aspecto visual é tarefa complexa. Na mpox, as feridas de uma mesma zona costumam apresentar o mesmo estágio de evolução, ao passo que a catapora exibe bolhas em fases variadas simultaneamente. O diagnóstico definitivo, contudo, exige exames laboratoriais com coleta de material das lesões.
Duração, isolamento e tratamento
O ciclo da doença costuma durar de duas a quatro semanas, período em que o doente mantém a capacidade de repassar o vírus.
“Só quando todas as crostas caem e a pele está completamente cicatrizada é que o risco de transmissão praticamente desaparece”, explica Costa. O isolamento domiciliar é indispensável até a cicatrização total.
O tratamento foca no alívio sintomático, controle de febre e dor, além de curativos. Casos severos podem demandar antivirais específicos, como o tecovirimat, sob indicação médica restrita.
Quem tem acesso à vacina no SUS?
A imunização não é voltada para o público em geral. A prioridade governamental atinge portadores de HIV com contagem de células CD4 abaixo de 100 células/mm³. O protocolo exige duas aplicações com intervalo de 28 dias nos centros de referência.
Se houver sobras de doses, a lista de atendimento pode incluir pessoas com HIV com CD4 abaixo de 200 células/mm³, usuários de PrEP, profissionais de laboratório que manuseiam o agente infeccioso e indivíduos que tiveram contato recente com casos confirmados, priorizando os primeiros quatro dias após a exposição para máxima eficácia.






