A temperatura média no Ceará registrou uma alta de 1,8 °C nas últimas seis décadas, impulsionando um cenário alarmante onde quase metade da faixa litorânea do estado sofre com processos erosivos. O aquecimento global intensificado pela queima de combustíveis fósseis, indústrias e queimadas traz consequências diretas para o equilíbrio ecológico e para a infraestrutura urbana da região.
O avanço do calor extremo e os registros históricos
O aquecimento acelerado no território cearense supera a média global estabelecida pelo Acordo de Paris, levantando alertas importantes entre especialistas da área ambiental.
“Nos últimos 63 anos, por exemplo, o estado do Ceará, a temperatura, em média, aumentou 1,8 graus, mais do que a média do planeta”, afirmou Marcelo Soares, professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC).
O pesquisador ressalta que pequenas variações geram grandes desequilíbrios, sobretudo por se tratar de uma zona equatorial que recebe um volume elevado de radiação solar. “Pode parecer pouco, mas o que acontece é o seguinte: no caso do estado do Ceará, a gente está em uma área equatorial, então a gente recebe muito calor”, explicou.
Ameaça de Super El Niño e riscos de estiagem
As oscilações térmicas dos oceanos também favorecem a chegada de eventos extremos, como o fenômeno El Niño, que pode ganhar força e se transformar em um Super El Niño. O aquecimento anormal das águas do Pacífico aumenta a probabilidade de fortes ondas de calor e secas prolongadas no Nordeste, evocando recordes históricos de estiagem e trazendo impactos diretos para a segurança hídrica da população, embora os reservatórios atuais estejam em uma situação mais confortável do que em crises passadas.
Impactos diretos na saúde pública e nas cidades
As altas temperaturas e as chamadas ilhas de calor — formadas pela concentração de asfalto e concreto nos centros urbanos — elevam os riscos de insolação, desidratação e problemas cardiovasculares. Além disso, o clima abafado favorece a proliferação de vetores transmissores de arboviroses, como a dengue, a zika e a chikungunya, afetando com mais intensidade as populações vulneráveis que habitam áreas periféricas e sem refrigeração adequada.
Avanço do mar e vulnerabilidade costeira
O derretimento de calotas polares e a expansão térmica das águas oceânicas provocam o avanço do mar sobre a costa cearense. Em locais como Icapuí, Caucaia, Jericoacoara e na capital Fortaleza, a erosão costeira destrói estruturas e ameaça o turismo e o abastecimento por meio da salinização de poços de água doce. Intervenções humanas passadas, como a construção de espigões, muitas vezes alteram a dinâmica das correntes e agravam o problema em praias vizinhas.
Caminhos para a mitigação e a adaptação climática
Para minimizar os danos nas próximas décadas, especialistas apontam que o poder público e a sociedade civil precisam atuar em frentes de adaptação urbana, como a ampliação de áreas verdes, o uso de pisos permeáveis e a criação de sistemas de captação de água da chuva.
“A gente vai ter que, digamos assim, se adaptar e lutar para tentar frear essa situação para que, nas próximas décadas, a gente sofra menos”, concluiu.






