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Documentos revelam bastidores da fuga de Flávio Bolsonaro aos EUA

Três entradas na Argentina em 40 minutos: os bastidores da fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil

Uma investigação minuciosa trouxe à luz a operação logística por trás da saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) rumo aos Estados Unidos. Com base em registros de imigração da Argentina obtidos por meio de cooperação internacional, constatou-se que a movimentação do político envolveu três passagens pela fronteira argentina em um intervalo de apenas 40 minutos, contando com a atuação de um homem apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel.

A largada para o exterior ocorreu em Puerto Iguazú, cidade argentina vizinha a Foz do Iguaçu (PR), cujo aeroporto dispõe de uma pista de 3.300 metros própria para receber jatos de grande porte. A partida de solo brasileiro aconteceu após o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenar a entrega dos passaportes do parlamentar à Polícia Federal.

Rotas aéreas e a movimentação terrestre A estratégia de deslocamento foi dividida em duas frentes distintas. Numa das vertentes apuradas, Flávio Bolsonaro saiu de Brasília nas primeiras horas da terça-feira, 27 de outubro, a bordo de um jato Cessna Citation Excel associado ao advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar. A aeronave aterrissou em San Fernando, na Grande Buenos Aires, de onde o senador teria prosseguido viagem em outro voo privado com destino a Puerto Iguazú.

Em paralelo, a esposa Fernanda e as duas filhas do casal decolaram de Brasília rumo a Cascavel, no Paraná. À noite, o trio embarcou em uma van ligada à empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda. Em diligência no endereço cadastrado na Receita Federal, encontrou-se apenas um estacionamento, onde trabalhadores informaram que o local nunca abrigou a agência. A encarregada do estacionamento declarou ser irmã de uma das representantes da Dallas e, ao ser questionada sobre o paradeiro da parente, pontuou: “O meu comércio é aqui.” Em nota oficial nas redes sociais, a empresa negou veementemente a realização do transporte.

Registros migratórios e a presença de escolta Documentos oficiais comprovam que duas vans da agência cruzaram a fronteira rumo à Argentina naquela noite. Enquanto o veículo vindo de Cascavel transportava a família do senador, o sistema migratório registrou três entradas em nome de Flávio Bolsonaro utilizando o mesmo automóvel: às 22h37 com passaporte italiano, às 22h40 com carteira de motorista, e às 23h11 com passaporte brasileiro. Posteriormente, os registros com documentos do Brasil foram anulados, mantendo válida apenas a entrada por via do documento italiano.

Sete minutos antes, a outra van já havia cruzado o posto de controle. Nela estavam o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre — que defendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro — e o israelense Menachem Booky Halevy, identificado como ex-oficial da inteligência de Israel. Menachem, fotografado em eventos ao lado de figuras como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, havia ingressado no Brasil em 19 de outubro por Guarulhos e acumulava outras três passagens pelo país ao longo do ano.

Em sua residência, o motorista Neri Luiz Dala Corte alegou ter sido contratado unicamente para transportar dois homens de um posto de combustível em Foz do Iguaçu até o aeroporto argentino, negando ter avistado familiares do senador. “Eu levei duas pessoas que eu nem sei quem é. Simplesmente deixei os caras no aeroporto. Eles desceram, fiz a volta, e quando tava saindo tinha uns repórteres assim na minha frente.”

O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal “C5N”, estava no local e confirmou ter abordado o condutor, relatando a forte presença de escolta e veículos oficiais. “Na frente da comitiva vinha uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária, que é responsável pelos aeroportos da Argentina. Depois, vimos sair duas caminhonetes brasileiras, com placas do Brasil e motoristas brasileiros. E, e, em seguida, mais duas caminhonetes argentinas, uma delas com placa diplomática.”

Apesar do registro terrestre, a principal linha investigativa aponta que Flávio aterrissou em Puerto Iguazú vindo de Buenos Aires e aguardou a chegada dos familiares dentro da aeronave.

Controvérsias na Argentina e o financiamento do jato A operação gerou forte repercussão na política argentina, motivando ordens judiciais para preservação de imagens de câmeras de segurança na fronteira e no aeroporto. A deputada argentina Marcela Pagano cobrou explicações formais das autoridades locais. “Há irregularidade na passagem pelo controle de imigração argentino, a escolta de policiais e, depois, o transporte em carros diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. São esses os elementos que eu apresento pra que a Justiça cobre explicações das autoridades argentinas sobre como puderam autorizar essa operação.”

Por sua vez, o Secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, limitou-se a dizer que o governo não tem manifestações a fazer. O trecho final da viagem rumo aos Estados Unidos foi efetuado em um jato de luxo Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly. Luis Grande, dono da companhia, declarou à agência France Press que o voo custou 150 mil dólares (cerca de R$ 800 mil), pagos por um intermediário norte-americano através de transferência bancária internacional, sem conhecimento do contratante final. A imprensa internacional especulou o envolvimento de Jason Miller, assessor de Donald Trump, e o jornal “Clarín” noticiou que agentes dos EUA teriam assumido temporariamente o controle de parte do aeroporto argentino.

Desembarque em território norte-americano Após uma escala técnica em Guayaquil, no Equador, a aeronave pousou na manhã de 28 de outubro no Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami. Questionado sobre o episódio, o presidente Donald Trump declarou que “não tomou partido” no pleito brasileiro, enquanto o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, refutou qualquer assistência governamental na repatriação do político. “Não facilitamos nada. Não tivemos nenhuma participação nos preparativos que ele fez. O governo dos Estados Unidos não teve participação direta em nenhuma das movimentações realizadas.” Rubio acrescentou que o senador já dispunha de visto válido e que a entrada foi autorizada pela presidência americana.

Repercussão e investigações em curso Pouco após a chegada aos EUA, Flávio publicou uma carta contestando o resultado das eleições presidenciais do Brasil sem apresentar evidências. Na redação inicial, intitulava-se “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, termo posteriormente alterado para “líder do Brasil”.

O advogado Frederick Wassef negou qualquer fuga ou caráter oficial nas informações veiculadas sobre a viagem. A Baires Fly absteve-se de comentar, enquanto a assessoria de Willer Tomaz emitiu nota declarando: “É falsa a informação de que aeronave pertencente a ele, ou a empresas vinculadas à sua família, tenha sido utilizada pelo senador Flávio Bolsonaro ou por seus familiares para deixar o Brasil.”

Flávio Bolsonaro permanece no exercício de seu mandato parlamentar até o encerramento de janeiro, quando perderá o cargo e o foro privilegiado pela primeira vez em 24 anos. Atualmente, ele é alvo de investigações no STF relacionadas a suposta lavagem de dinheiro envolvendo apostas esportivas e repasses ao filme Dark Horse, com o advogado Willer Tomaz e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Willer também negou formalmente as acusações de lavagem de dinheiro.

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