A morte de Heloise, de 3 anos, atingida por uma trave de futebol durante uma festa de Dia das Crianças em Imbaú, no Paraná, traz à tona um problema recorrente e letal em áreas de lazer por todo o território nacional. Levantamentos recentes apontam que pelo menos 107 acidentes envolvendo essas estruturas ocorreram nos últimos 20 anos, resultando em 61 mortes e 34 feridos, sendo que mais de 90% das vítimas tinham até 12 anos de idade.
Relatos de dor e o medo de novas tragédias
No momento do acidente, Heloise estava em uma comemoração comunitária e caminhava de mãos dadas com a mãe, Casturina da Silva, em direção a um carro para guardar doces e brinquedos. “Eu até tentei, colocar a mão e tentar pegar ela, mas quando vi já era tarde demais”, relata. Uma semana após o falecimento, o pai, Helgrid Leandro, visitou o campo pela primeira vez enquanto a comunidade ainda tenta compreender o ocorrido. Casturina relata que crianças continuam frequentando o local e expressa forte preocupação: “Sempre me deparo com crianças brincando lá. Acho que é uma coisa perigosa que pode acontecer de novo. Se não derem um jeito”.
Outras famílias no Paraná enfrentam traumas semelhantes após perdas em Marquinho e Prudentópolis. Em São Paulo, Victor Hugo sobreviveu aos 12 anos após ser atingido por uma baliza durante uma partida de goleiro em uma praça de Peruíbe. O impacto gerou convulsões, intubação e coma induzido, deixando sequelas permanentes. “Até hoje ainda cuido dele porque ele ficou com problema no braço, ficou com sequela, passa pela psicóloga”, conta a mãe, Joice Fernandes, que precisou abandonar o trabalho e aguarda na fila de precatórios o pagamento de uma indenização por negligência contra a Prefeitura. Para a advogada Selma Santos, o incidente era evitável: “Mesmo que ele tivesse pendurado na trave, como eles alegaram na defesa, não seria motivo, porque se ela tivesse bem fixada, de acordo com a necessidade mesmo de fixação para evitar acidente, a trave não teria caído com uma simples batida de bola, que foi o que aconteceu”.
A ausência de legislação federal e o exemplo gaúcho
O país carece de uma norma nacional obrigatória para a correta ancoragem de traves, fazendo com que as regras variem conforme a localidade. Enquanto Santa Catarina não possui diretrizes e o Paraná mantém discussões estagnadas, o Rio Grande do Sul implementou a Lei Marina Fallavena, batizada em memória de uma menina de 11 anos vítima de uma estrutura mal instalada. A norma exige vistorias periódicas, dois pontos de fixação e laudos técnicos em espaços públicos e privados, aplicando multas e riscos de interrupção de atividades aos infratores. Luana Frasson, diretora da Secretaria de Obras gaúcha, destaca o baixo custo da medida: “Independente do tipo de fixação escolhido, a gente não passa de 500 reais, é um valor bastante baixo, né?”.
O comportamento infantil e a necessidade de prevenção
Especialistas em gerenciamento de riscos reforçam que o comportamento das crianças deve ser fator central no planejamento da segurança urbana e esportiva. Para Moacyr Duarte, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), balançar-se e pendurar-se nas balizas é uma atitude perfeitamente esperada dessa faixa etária: “Pendurar-se nas traves é quase irresistível. Balançar-se pra frente… Pendurar-se pelo joelho de cabeça para baixo é fabuloso”. O especialista aponta que a inclinação superior a 45 graus acelera a queda, tornando o impacto severo, e alerta que a corrosão por maresia e a falta de manutenção agravam o cenário de vulnerabilidade.
O responsável pelo espaço onde Heloise perdeu a vida alegou que ventos fortes e chuvas intensas teriam deslocado os grampos de fixação, enquanto a administração municipal de Peruíbe substituiu o equipamento enferrujado envolvido no caso de Victor Hugo. Como desdobramento diante da gravidade dos episódios, um projeto de lei federal foi apresentado recentemente pelo deputado federal Danrlei (PSD-RS) com o objetivo de regulamentar e padronizar os critérios de segurança para a instalação de traves em todo o Brasil.






