Um ambicioso projeto cultural está tomando forma em uma oficina situada no bairro Humaitá, na Zona Norte da capital gaúcha, onde 46 aeronaves militares passam por um meticuloso processo de restauração para integrar um novo espaço expositivo.
As raridades históricas O acervo em preparação foi arrematado em leilões promovidos por forças armadas e por outros entusiastas da preservação histórica, reunindo peças de alto valor estratégico e militar.
Entre os principais atrativos da coleção destaca-se um helicóptero modelo H-1H norte-americano cuja fuselagem ainda exibe marcas de combate do conflito no Sudeste Asiático.
“Ele foi amplamente difundido na Guerra do Vietnã. Foi usado como ‘faz tudo’ do Vietnã, tratorzão voador, fazia transporte de tropa, transporte de munição, incursão pelo ar, fazia lançamento de medicamentos, munições, resgate, aeromédico”, explica o restaurador e colecionador Luciano Schneider, presidente da Associação Cultural de Preservação Patrimonial Histórico Militar.
Participação em conflitos internacionais Outro atrativo de peso na oficina consiste em duas unidades do modelo P-95 que atuaram ativamente durante o confronto entre Argentina e Inglaterra ocorrido no Atlântico Sul em 1982.
“Tenho o histórico delas, até a época que foram cedidas para a armada argentina para fazer a patrulha marítima durante a guerra”, afirma Luciano.
Desafios da restauração A coleção também abrange um caça F-5 que sofreu um acidente operacional no dia 5 de julho de 2016 na Zona Oeste do Rio de Janeiro após uma pane no trem de pouso, cujos pilotos conseguiram se ejetar a tempo.
Como a aquisição envolveu itens de armamento pesado, a estrutura precisou ser seccionada para viabilizar o transporte rodoviário até território gaúcho, exigindo técnicas complexas de soldagem e acabamento.
“A gente acabou soldando as partes dele e colocando tudo de volta no lugar. Então a gente faz um trabalho de chapeação e pintura veicular”, diz o colecionador.
O esforço de resgate histórico contempla ainda um cargueiro Douglas C-47 empregado pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial para operações aeroterrestres e que posteriormente integrou a frota da Força Aérea Brasileira.
“Quando foi descoberto, já estava sendo todo triturado. O que a gente conseguiu restaurar foi a cabine. Conta com toda a estrutura de painel, manetes de potência, manche, tá todo bonitinho”, relata.
Quando o acervo chega incompleto, a criatividade entra em cena para substituir elementos faltantes por meio de chapas metálicas moldadas artesanalmente.
“Tu tira uma peça de um, tira de outro. Compra chapa plana, dá o formato e vai aplicando. Depois vai fazendo acabamento, tinta, não vai dar para ver essa emenda”, detalha o especialista.
Abertura ao público A expectativa da diretoria é inaugurar o espaço de visitação ainda no decorrer deste ano, permitindo que o público geral tenha contato direto com artefatos que marcaram época na aviação de defesa.
“Ainda este ano vai ser aberto espaço para visitação pública em Porto Alegre e essas aeronaves todas vão poder ser visitadas. As aeronaves que são restauradas são apenas, meramente, para demonstração. As pessoas vão ver de perto uma aeronave que teve sua vida na ativa e hoje é peça de museu”, projeta Luciano.
Para o idealizador do projeto, a conclusão das reformas representa a concretização de um sonho acalentado desde a infância, unindo diversão e preservação da memória nacional.
“É muito gratificante. Me sinto reconstruindo a história e brincando. É brincar de Lego, eu me divirto muito com isso. Desde que me conheço por gente, passava formação de Xavantes no céu, eu dizia: um dia vou ter um avião”, conclui.






