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Custo da comida saudável exclui 44,8 milhões de brasileiros

Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões sem acesso à alimentação saudável

Embora o Brasil tenha conseguido deixar formalmente o Mapa da Fome ao reduzir a subnutrição para menos de 2,5% da população, garantir pratos equilibrados e nutritivos para todos ainda é uma meta distante. Ao todo, 44,8 milhões de brasileiros — o equivalente a quase um quinto da população nacional — não possuem orçamento suficiente para bancar uma rotina alimentar saudável, composta por grãos, vegetais, legumes, frutas e fontes de proteína nas diretrizes recomendadas internacionalmente.

As conclusões constam no relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi), elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os números revelam que, apesar do recuo expressivo na comparação com o intervalo de 2021 a 2023 (quando eram 39,7 milhões), o país ainda mantinha 20,3 milhões de cidadãos sob insegurança alimentar moderada ou severa no período de 2023 a 2025.

Perfil da vulnerabilidade e descontinuidade de renda

A escassez alimentar severa atinge a população de maneira desigual no território brasileiro. O problema se concentra prioritariamente nas regiões Norte e Nordeste, além de incidir com maior intensidade em lares chefiados por mulheres, principalmente mulheres negras.

Para Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, essa vulnerabilidade reflete diretamente o mercado de trabalho informal e precarizado. “A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.

Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), frisa que os programas sociais enfrentam gargalos no suporte duradouro a quem mais precisa. Para ela, as estruturas estatais frequentemente falham na retenção desse público: “Uma pessoa em situação de rua chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo.”

Por que manter uma dieta equilibrada custa caro?

O indicador da ONU avalia a viabilidade de uma dieta diversificada composta por 11 itens essenciais que totalizam cerca de 2.330 calorias diárias, divididos entre tubérculos, laticínios, carnes, sementes, óleos, frutas e verduras. No Brasil, o custo médio diário dessa cesta subiu de 3,97 dólares internacionais por pessoa em 2021 para 4,89 em 2025 — índice de paridade que reflete o poder de compra interno.

De acordo com o especialista Graziano, a recente valorização do salário mínimo não foi suficiente para compensar o encarecimento das refeições naturais. “O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, diz Graziano.

Outro problema reside na disparidade de preços entre ingredientes naturais e itens altamente industrializados. Graziano pontua que a cadeia de perecíveis demanda refrigeração constante e logística complexa: “A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final”.

Por outro lado, ultraprocessados mantêm valores menores pela utilização em larga escala de matérias-primas subsidiadas pelo agronegócio nacional. Silvia Zimmermann pontua: “Se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes”.

Clima, gargalos na produção e circuitos longos

O cultivo de hortaliças apresenta ciclos curtos e elevada sensibilidade a secas e enchentes, fazendo com que desastres climáticos resultem em altas imediatas nos supermercados e feiras. Custos de combustíveis e adubos internacionais também pressionam os produtores.

Graziano aponta ainda um descompasso estrutural no fomento científico agropecuário: “A Embrapa Hortaliças, por exemplo, tem desenvolvido novas variedades, assim como a Embrapa Feijão. Mas esses avanços ainda são pequenos quando comparados ao progresso de outros segmentos, como o da soja”.

Além disso, o foco exclusivo na exportação distorce o abastecimento regional. Segundo Elisabetta Recine, regiões como o Vale do São Francisco (PE) privilegiam mangas e uvas para a Europa e Estados Unidos: “Esses polos dão preferência para a produção de frutas que os outros países estão querendo ao invés de olhar para a região e pensar: ‘bom, quais são as frutas tradicionais daqui? As frutas nativas ou que têm uma relação histórica ou social com o local?'”

Essa organização força o transporte

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