Um ano após a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou em 122 mortes, os reflexos da violência extrema continuam presentes na rotina de crianças e adolescentes da região. Moradores enfrentam traumas contínuos, medo generalizado de transitar pelo próprio território e dificuldades severas para manter os estudos e as atividades de lazer.
Prejuízos na educação e na rotina escolar O professor Marcelo Martins, fundador do projeto comunitário Estudando para Vencer na Vila Cruzeiro, aponta que a proximidade da ação com o período de provas do Enem comprometeu o planejamento pedagógico.
“Nós tivemos aqui uma semana muito difícil porque foi antes da prova do Enem. Então nós não conseguimos montar revisões, aquilo que todo pré-vestibular faz, principalmente os privados. Faz na semana do Enem, semana só de [ciências] humanas, semana só de exatas. Nós não tivemos isso. Nós não conseguimos fazer isso porque o medo tomou conta”, relatou o educador.
Além da suspensão temporária das aulas, a presença de corpos na praça em frente ao espaço social marcou profundamente estudantes e professores. Em dias de conflito, a circulação fica comprometida e o medo de novos tiroteios afeta a frequência e a segurança no período noturno.
“Muitas das vezes a gente está aqui dando aula e, do nada, chega o Caveirão [veículo blindado das polícias], o tiroteio começa, e os alunos ficam presos aqui”, contou.
“E o jovem também sair daqui às 22h é complicado. Querendo ou não, a gente sofre o reflexo disso tudo até os dias de hoje”, completou.
O impacto na saúde mental infantil A psicóloga Thaís Marques, moradora da região, atende pré-adolescentes e observa quadros recorrentes de ansiedade, hipervigilância e receio constante de novas incursões policiais. Para ela, a aparente normalidade com que a população lida com o cenário é, na verdade, uma tática de sobrevivência.
“Eu preciso dizer que a gente não está acostumado. E eu digo isso com apropriação, porque não tem como a gente se acostumar com o que é ruim”, afirma.
A profissional destaca ainda que o ambiente de insegurança e o racismo estrutural minam a autoconfiança dos jovens, que muitas vezes internalizam a sensação de exclusão e adotam posturas defensivas preventivas diante de abordagens.
“O jovem pensa: ‘Eu não me sinto capaz porque eu não sou suficientemente bom para estar naquele espaço’”, aponta.
Mobilização comunitária e ausência do Estado Diante dos traumas coletivos e das perdas materiais sofridas pelas famílias, organizações locais têm atuado no suporte psicológico e na orientação jurídica. A assistente social Evelin Dias, da Frente Penha, enfatiza a necessidade de resgatar as perspectivas dos estudantes.
“A gente tem que reconstruir a confiança desse jovem, reconstruir os sonhos e as possibilidades desses jovens. Então, assim, o impacto psicológico foi muito grande”, declara.
Apesar da atuação de redes de apoio e instituições parceiras, as lideranças locais reforçam que o suporte governamental ainda é insuficiente para atender às demandas habitacionais, psicológicas e sociais da comunidade.
“O que eu acho maravilhoso é essa autoajuda, mas a ajuda do Estado mesmo ainda não chegou. O que chegou foi ajuda, auxílio de outras instituições parceiras”, conclui.






