Largar o vício do fumo traz vantagens que vão muito além da proteção respiratória e cardíaca. Uma nova investigação científica aponta que abandonar o cigarro também atua na defesa do cérebro ao longo do envelhecimento, diminuindo as chances de declínio cognitivo e de problemas neurológicos graves.
Impacto a longo prazo
O levantamento acompanhou mais de 32 mil voluntários nos Estados Unidos por um período de até 25 anos. Os dados revelaram que os indivíduos que conseguiram parar de fumar apresentaram uma probabilidade 16% menor de desenvolver quadros de demência em comparação àqueles que mantiveram o hábito.
Divulgados na revista Neurology, os achados abrangeram quase 5,8 mil ocorrências de demência durante todo o monitoramento. A cada biênio, os voluntários passavam por uma reclassificação que indicava se eram fumantes, ex-fumantes ou se jamais haviam fumado. Além disso, constatou-se que a interrupção do tabagismo desacelera a perda cognitiva com o passar dos anos.
Relação com doenças neurodegenerativas
O achado consolida uma conexão amplamente debatida pela comunidade médica sobre o papel do fumo como gatilho para enfermidades neurológicas. “O tabagismo aumenta em cerca de 30% a 40% o risco de desenvolver tanto doença de Alzheimer quanto demência vascular, que são as 2 formas mais comuns de demência no Brasil e no mundo”, disse a neurologista Jerusa Smid, do Einstein Hospital Israelita.
O comprometimento dos vasos sanguíneos figura entre as principais explicações para esse cenário. “O cigarro provoca lesão e disfunção vascular, aumentando o risco de acidente vascular cerebral. E sabemos que o AVC pode levar à demência”, explicou Smid. O processo ainda gera estresse oxidativo, enfraquecendo as defesas naturais do cérebro e facilitando o acúmulo de proteínas ligadas a patologias degenerativas.
Evolução da abstinência
Apesar de pesquisas anteriores já apontarem os malefícios do fumo para a mente, a extensão exata da proteção após o fim do hábito ainda gerava dúvidas. “Os dados existentes sobre a redução de risco depois de parar de fumar eram inconsistentes. Esse estudo traz uma informação robusta em relação a essa questão”, disse a neurologista.
O estudo demonstra que a queda no risco de demência ocorre de forma gradual. Após aproximadamente sete anos de abstinência, o índice se equipara ao de pessoas que nunca fumaram. Contudo, por ter caráter observacional, a análise não crava uma relação direta de causa e efeito ou detalha todos os mecanismos envolvidos.
O fator peso e prevenção global
Outro dado relevante mostra que as vantagens cognitivas foram mais expressivas entre os ex-fumantes que engordaram pouco ou nada após o corte do cigarro. Quem acumulou mais de 10 kg nos dois anos seguintes não obteve a mesma proteção contra a demência.
Relatório publicado em 2024 na revista The Lancet destacou 14 fatores que podem ser modificados ao longo da vida para evitar a demência, respondendo por cerca de 45% dos casos globais. A lista inclui obesidade, sedentarismo, hipertensão, diabetes, colesterol alto, tabagismo e álcool em excesso. “Muitos desses fatores estão relacionados ao aumento do risco cerebrovascular e às alterações metabólicas”, explicou Smid.
Outras medidas de preservação cerebral envolvem manter conexões sociais, cuidar da audição e visão, combater a depressão, evitar traumas cranianos e fugir da poluição. Dormir bem, alimentar-se de forma equilibrada e buscar novos conhecimentos também entram na lista de cuidados essenciais.
“Não sabemos quanto a interrupção do tabagismo influencia isoladamente, mas imaginamos que com isso seja necessário um programa de controle de peso, atividade física e acompanhamento da saúde cardiovascular, incluindo hipertensão, diabetes e colesterol”, disse Jerusa Smid. A especialista também reforça a importância de abandonar o estigma de que parar tarde não traz resultados. “O maior benefício ocorre quando a cessação acontece antes dos 40 anos, mas há ganhos importantes em qualquer fase da vida, inclusive entre pessoas acima dos 65 ou 75 anos”, disse a neurologista.






