O encarecimento da energia e dos combustíveis, somado à precarização de serviços públicos e à crise habitacional, tem impulsionado uma forte onda de manifestações na Europa, gerando impactos diretos no cenário político de diversos países do continente.
As raízes da revolta popular As preocupações com o poder de compra tornaram-se “um dos principais motores da política populista” na Europa, afirma o cientista político Gilles Ivaldi, da universidade francesa Sciences Po.
Na França, a inflação elevada, o endividamento e o crescimento econômico fraco empurram o governo a cortes orçamentários, enquanto a população exige mais investimentos na educação e nas redes públicas. Multidões saíram às ruas nas últimas semanas, culminando em atos que reuniram cerca de meio milhão de pessoas. O movimento começou com estudantes cobrando melhorias em escolas de ensino médio, mas rapidamente degenerou em confrontos violentos, saques e depredações em várias cidades.
“A França serve como modelo de protesto para outros movimentos no norte da Itália, em Bruxelas e em Portugal”, afirma o analista da Chatham House Sebastien Maillard.
O avanço da ultradireta e o impacto eleitoral Esses distúrbios ocorrem às vésperas de pleitos decisivos em nações cruciais da União Europeia. Na Itália, a premiê Giorgia Meloni enfrenta o crescimento da oposição nacionalista antes das eleições do próximo ano. Na França, Marine Le Pen lidera as pesquisas para a sucessão presidencial.
Analistas apontam que a instabilidade beneficia discursos extremistas. Ao mesmo tempo, o descontentamento popular reverbera no apoio ocidental à Ucrânia, com radicais de diferentes matizes defendendo a retomada de laços energéticos com a Rússia para baratear o custo de vida.
Na Alemanha, o partido AfD relaciona o encarecimento da energia ao suporte a Kiev.
“Partidos populistas frequentemente apresentam os custos de energia como algo evitável e os atribuem às decisões políticas de governos, em vez de aos choques geopolíticos subjacentes que os provocam”, diz o professor de economia Jan Steckel, da Universidade Técnica de Munique.
“Esses choques geopolíticos são muito mais difíceis de explicar. E acredito que é por isso que os partidos que estão no poder frequentemente enfrentam dificuldades.”
Na Polônia, o político ultradireitista Grzegorz Braun utilizou um tom provocativo ao defender o retorno das compras de petróleo e gás russos.
“Eu adoro o cheiro do gás russo pela manhã”, declarou, parafraseando a famosa afirmação do filme Apocalypse Now.
A insatisfação da juventude e a crise de moradia O sentimento de incerteza atinge de forma aguda as novas gerações. Muitos atos refletem a ansiedade perante o futuro, marcada por “um forte sentimento de incerteza e perda de controle”, afirma a professora de sociologia María Silvestre, da Universidade de Deusto, na Espanha.
“Por que estou aqui? Bem, muito simplesmente porque considero o atual custo de vida realmente assustador”, disse Quentin Leviloux, manifestante de 21 anos em Nantes, na França.
“Basta pensar nas pessoas que ganham apenas um salário mínimo quando se vê o custo dos alimentos, dos combustíveis e de tudo o mais. É assustador ver como tudo se tornou incrivelmente caro.”
Em paralelo, a falta de moradia acessível mobiliza espanhóis e portugueses. Em Lisboa e Madri, acampamentos de protesto contra os preços abusivos do aluguel desafiam as autoridades locais e pressionam os governos centrais, resultando em fortes intervenções policiais e prisões.
Desdobramentos na Itália e na Albânia Na Itália, marchas pacíficas deram lugar a tumultos em centros financeiros como Milão e Turim, levando o governo a planejar o envio de tropas para conter o vandalismo. Paralelamente, greves de caminhoneiros ameaçam o abastecimento e paralisam a indústria de alimentos.
Na Albânia, manifestações contra a corrupção e a qualidade da educação culminaram no incêndio do Tribunal de Apelação em Tirana. O primeiro-ministro Edi Rama criticou os atos e afirmou que os manifestantes foram “ideologizados e radicalizados” por grupos radicais de esquerda.
Diante do cenário de revolta generalizada, líderes europeus tentam equilibrar medidas de segurança enérgicas com respostas econômicas para conter a escalada da insatisfação popular.






